sentados sentindo o mundo girar ao nosso redor
nos fundos de um ônibus mal iluminado
te cochicho no ouvido sobre meu ser
confesso que mal percebi quando chegamos
confesso que nada disso estava nos meus planos

aos poucos sua presença permanece
como em um abraço bom, daqueles que se demora a soltar
os braços escorregando ao redor do corpo

abandone seus medos, criança
não há necessidade deles pra onde vamos


você pôs em dúvida cada pedaço de certeza que existia em mim
e como foi bom, entender que somos ilimitados
podemos ir pra qualquer lugar e ser quem quisermos ser

peço que continue me fazendo duvidar de tudo que acho certo ou comum
que veja cada pedaço irregular de mim e me ajude a desenvolvê-lo ainda mais
pra que eu nunca seja comum, como-todo-mundo

que sejamos eternos
eternos até o fim do dia
infinitos até o horizonte

afinal nem o fim do dia nem o horizonte são limite
pra quem podemos nos tornar

meu egoísmo não permitia que percebesse até passar por isso
olhando pro meu passado, percebo que nunca soube direito o que era amar
sempre ficava vivendo por imitação, comparação e observação
tentando aprender nas próprias relações como elas funcionavam

me lembro da primeira vez que chorei só
assumi que ninguém era responsável pelos sentimentos dos outros
era a única forma de explicar como existia tanta dor 
que as próprias pessoas fossem responsáveis pelo que acontecesse com elas

talvez então não fosse responsável pelos sentimentos dos outros
e é um pensamento estranho, considerando agora, um pensamento sem lógica
ninguém quer ilusões, ninguém deseja castelos de areia, embora o jogo exista
todos jogam o jogo procurando encontrar uma verdade
parecem concepções aprendidas por uma criança, mas nunca antes tive esse aprendizado

pela primeira vez encontro uma das linhas limites sobre o que é amor

amar é ser responsável pelo o que os outros sentem

tão natural e intuitivo, oculto pra olhos egoístas

você já recitou poesias na escuridão?
clamando que ela ouça um dos versos
pra curar o coração?


e se pudesses controlar as palavras que são perdidas pelo vento?
aquelas que falamos e o vento leva longe
se até mesmo o bater de asas uma borboleta
pode influenciar em tempestades do outro lado do mundo

pode ser que essas palavras se tornem tempestades na China
ou calmarias infindas no meio do Oceano Índico
e se ainda cada palavra influenciasse de uma forma o dia

como a palavra "Oi" tornasse a temperatura do deserto do Saara um pouco mais alta ao meio dia
ou a ternura escondida entre estes versos seria uma brisa através do hijab de alguém em Dubai
mas as palavras violentas talvez provocassem terremotos no Haiti
e os gritos de socorro ou de dor causassem erupções solares

imagina quanta responsabilidade haveria de se ter nas palavras ditas
nas ações tomadas e nos derradeiros momentos de loucura

e afinal, porque haveria de não ser assim?

e se fôssemos aos poucos nos distanciando
olhando por trás dos ombros
pra ver quem olha pra trás primeiro
como se andássemos em direções opostas
apenas pra experimentar onde chegaríamos

contam que é fácil se perder
quando não se sabe onde se quer chegar
talvez seja por isso que estão todos perdidos
e tenha te encontrado quando eu não sabia
como e porquê eu deveria chegar lá

será que estou me perdendo?
ou já estava perdido desde o começo
quando começaram a tocar as canções
teus olhos começaram a me roubar

quando as primeiras gotas de água tocam a grama
e o cheiro de chuva invade o dia
os ânimos se acalmam e os detalhes de ti
gravados em minha memória

me acalmam tão bem

você se parece com a chuva


se tivéssemos mais tempo
pediria pra sentir mais o teu abraço
apertar mais teu corpo junto do meu
encher de mais beijos

se tivéssemos mais tempo, estaríamos os dois
dançando com a sensação musical de viver
mesmo os fios dos postes baixos
e os delírios nas calles altas
se inclinariam pra ver

se pudesse te amar
sentiria tudo novamente mil vezes
deitado perto da praia no mar
sob céu de sol ou lua

se tivesse um pouco mais de tempo
poderíamos nos olhar naturalmente
sem medo de sofrer


quem controla o tempo que perdemos?
que podemos pensar que talvez
não seja nossa própria culpa
todos esses momentos que escolhemos não viver

e os doces instantes, entre lábios inebriantes
no escuro de um cinema ou escondidos da claridade
quem ditará os instantes que podem e os que não podem ser vividos?

na verdade, a pergunta seria
quanto você criaria com o tempo
que perde todos os dias?

é estranho como essa sala falta tanto de ti
como o pincel no quadro desliza sem sentido
as linhas tortas que Lapo desenha seguem sem significado
o que há de interessante em algo sem sentido e sem significado?

sentido pra mim é como o caminho que se segue
onde os passos e escolhas são tomadas
significado é o motivo de como os passos e escolhas
vão conduzindo seu destino

há de se imaginar onde se quer chegar
e imaginar quem se quer ser
deve visualizar-se lá
como se já fosse aquela pessoa

o próprio vai e vem do mar da sociedade
te leva a qualquer lugar que você quiser ir

claro que existirão monstros
eles nunca deixarão de existir

mas sua própria trajetória decidida
faz com que apenas o que importa permaneça

pensaria três vezes antes de entender o que você dizia
faria silêncio sem medir a distância que entre nós sumia
não teria tempo para pormenores
afinal esse sentimento é tão imenso

quando seus lábios passam pelos meus
sua boca que leva meu peito até o céu
nem percebi o labirinto que cresceu ao meu redor
enquanto os pensamentos em ti me conduziram ao interior

rezo para que mais uma vez eu possa amar
ajoelho aos céus, ateu cético
pedindo que quem quer que seja
que me permitiu amar de novo
não deixe que isso acabe
em um sopro


esses olhos de entardecer resolveram nascer no meu peito
enquanto estou aqui olhando pra porta do meu quarto aberta
deitado entre os cobertores leves
talvez até leves demais pro vento que entra pela janela

talvez quando me expresso pra te dizer o quanto você é incrível
não fique tão claro porque digo isso
a verdade é que não sei

não sei porque não é possível saber coisas que apenas sentimos
não consigo colocar em palavras ainda o que sinto quando olho pra ti
quando sinto seu toque na minha pele
ou seu levantar de sobrancelhas quando me olha
como quem dissesse "e aí? está pronto pro desafio?"

sinto que estou

sempre há tempo
para castelos de areia

 


Na terra dos homens,
Há verdades e enganos.
Eles se dizem livres,
Mas não sabem que há um rei.

O rei que a todos controla
É invisível como o vento,
Quando se faz presente,
O seu passar oscila em leve sopro,
Reflete na vibração das folhas.

Não obstante, descrêem que ele existe.
Seria loucura tentar ver,
Se é mais fácil ignorar o que é invisível,
Viver sob o filtro que dissimula a vida em liberdade.

Na terra dos homens,
Dizem que não há leis.
Cada um faz sua escolha
Sem saber que foram direcionadas.

Os homens se dizem felizes,
Mas não sentem a felicidade.
Conhecem apenas alguns sinônimos,
Com isso se contentam.

Na terra dos homens,
Existem aqueles que são loucos,
Que dizem a todos que estão enganados,
Que estão sendo controlados.

Os loucos falam com o vento,
Brigam contra o seu soprar.
Os sóbrios são apenas levados por ele,
Seguem por onde o fazem voar.

Quem acorda pela manhã,
Na terra dos homens,
Não se lembra dos sonhos da noite.
Eles assim preferem; pois sem lembranças não há pesadelos.

Na terra dos homens,
Existe um palácio invisível.
De lá, o rei que o habita enxerga a todo lugar.
De tudo o que pode influenciar,
só não o pode fazer nos sonhos dos que dormem.

Viver na terra dos homens
É estar nos balançares do contentamento.
Enquanto todos vivem bem,
Um a todos dá os olhos do bem viver.

Entre verdades e enganos,
Enquanto os loucos se aceitam loucos
E não acham na sobriedade a verdadeira loucura,
Na terra dos homens,
A expectativa nunca se quebrará em veracidade.