Avz - Folha 2

by segunda-feira, janeiro 16, 2012 0 comentário(s)

Um vento frio corre pela borda aberta da armadura,
Penetra entre as ferragens, e torna meu corpo rijo e atencioso.
Agradeço por esse vento frio.

Agradeço também por ter me trazido até aqui, porém,
Não quero mais continuar.

Andei demais até aqui, matei coisas, pessoas, e monstros demais até os passos que dei,
Realmente, não há muito o que fazer lá fora, mas há muito o que resolver aqui dentro.

Lá fora eu só tenho uma opção: Não morrer.
Aqui dentro, eu só vivo com minhas lembranças despedaçadas,
Com minhas idéias destruídas e meus sonhos perdidos.

Aqui dentro, sou apenas imagem refletida por espelhos quebrados e despedaçados.

Bem, a história começa quando o mundo ainda estava limpo. Nada de aliens.

Estávamos vivendo através das eras tranquilamente,
Plantando, colhendo, vivendo como se nossa vida fosse apenas essa,
E realmente era.

Um dia, enquanto colhia milho na plantação, acabei por descobrir uma outra pessoa no meio do milharal.
Era uma mulher, por pouco não passei minha foice pela pescoço dela enquanto cortava milho,
Hoje, vejo que devia ter passado.

Ela estava nua, e tinha marcas,
Certos tipos de cicatrizes negras que brilhavam à luz do sol,
Realmente, não sei exatamente qual o tipo de marcas eram aquelas naquela época,
Mas hoje as reconheço muito bem...


Abriguei-a em minha casa, com minha mulher e minhas três filhas e um filho,
E cuidamos dela como se ela fosse da nossa família.

Em nossa primeira semana, eu e meu filho continuamos o trabalho, e após um dia inteiro cansativo,
Nós nos aproximamos da nossa casa, e havia um cheiro estranho no ar.

O ar estava cheirando à sangue pútrido, e quando nos aproximamos um pouco da casa,
Haviam marcas de mãos feita com tinta ver... Não, feitas com sangue na janela.

Quando atravessamos a porta, haviam marcas de sangue por todo tapete, pés, mãos e algumas partes de corpos perdidas,
Eu subi as escadas e meu filho foi ver na cozinha,
Encontrei minha mulher e minhas duas filhas mais velhas mortas,
Despedaçadas, e com sua carne aberta e mordida, como se houvessem utilizado elas como algum tipo de alimento,

Conto isso tudo à sangue frio, pois hoje... Bem, hoje, nada mais importa.

Desci apressadamente a escada de casa, e encontrei na sala minha última garota... Minha caçula.
Estava completamente parada, sentada no sofá, olhando para a televisão.

Corri até ela e a chamei pelo nome, um misto de grito e choro: "Isabelle!".
Mas quando a toquei, a metade horizontal de seu cérebro acima dos olhos deslizou para o lado esquerdo,
E aos meus olhos, vi que aquilo era apenas pele. Todo o conteúdo, havia sido sugado, comido.
Não havia nada dentro daquele corpo de carne, havia apenas pele, e sangue, muito sangue.

Gritei pelo meu filho: "Jon! Jonathan!".

Não ouvi resposta, corri até a cozinha.

Meu filho estava de costas pra mim.
Não vi seu rosto, mas percebi que não era ele mais.
Fui até a sala, acima da lareira, peguei a espingarda e voltei para a cozinha.
O chamei, e ele se virou lentamente.

As partes de seu corpo estavam completamente brancas,
Como se não existisse sangue bombeando por trás delas.

Nada existia senão vazio e doença.
Então vi seu rosto.

Ainda tinha os olhos azuis, mas metade dele estava aberto,
Em uma mistura de tripas, ossos cranianos e sangue.

Então eu vi.

Os primeiros aliens. Semelhantes à pequenas baratas,
Elas comiam a parte de dentro do cérebro dele.

Andavam através da pele, e sob a pele. Tiravam grandes pedaços de carne,
E os devoravam, com pequenos, mais muitos dentes.

Suas antenas se viraram para mim.
Levantei a espingarda,
Mirei na cabeça do que um dia fora meu filho.
E atirei.

Tornando isso minha distração, comecei a correr.

Corri, corri da minha casa, corri daquela vida.
Corri através do milharal, e busquei abrigo na casa dos Mi'z.
A casa da família que era mais próxima à mim.

Chegando lá, bati desesperado na porta, era um horário cedo,
Porém, assim como nós, os Mi'z costumavam dormir cedo.

Após cinco batidas, quando já estava desistindo,
O menino dos Mi'z abriu a porta.

- O que ocê quer?
- Preciso falar com seu pai, algo está acontecendo.
- Mo pai ta durmino.
- Eu sei, mas preciso falar com ele, acorde-o.
- Ta entaum.

Ele fechou a porta, e ouvi seus passos subirem o início da escada.
Também ouvi um barulho forte e alto, quando ele caiu no chão.
Eu atirei através da porta.

Vi baratas aliens correndo pelo chão da casa.
Aquele lugar também fora infectado.
Era melhor o garoto morrer agora do que sofrendo.

Então tive uma idéia.

Corri através do milharal,
Peguei uma folha de milho, enrolei-a e com o cadarço do meu tênis a fiz como um canudinho,
E fui para um lugar aonde apenas eu e meu filho sabíamos que existia.

Uma vez, quando ele era pequeno, fomos forçados à matar um lobo.
Meu filho quis um enterro digno à esse animal,
E nós nos propusemos à cavar três covas no meio do milharal, caso aparecesse um novo lobo,
Não precisaríamos cavar outra cova.

Corri até o lugar, e quando cheguei lá, atirei-me no buraco,
E comecei a jogar terra em cima de mim.

Me tampei completamente, e apenas deixei de fora o canudinho,
Que estava ligado com minha boca, para respirar.

Fiquei imóvel.

Cego pela falta de luz, e respirando brevemente.
Permanecendo o máximo imóvel possível, fiquei não sei por quanto tempo ali.

Às vezes dormia, dormia e sonhava com os dias bons com minha família.

As vezes que eu ensinei meu filho a pescar, trabalhar e a tirar o sustento da terra.
O ensinei como cuidar de tudo que havia feito para ele.
Ensinei as minhas filhas como cozinhar um bom guisado.
E aprendi o que é amor, amando minha família.

Hoje, isso apenas incomoda,
Naquela época, meu coração doía como se preferisse a morte do que qualquer coisa,
Mas sou um sobrevivente, e tentarei ao máximo viver.
Às vezes penso que, foi melhor assim, muitos não conseguiriam viver nessa época,
Ou passar por isso. Apenas sobrevive quem vive.

Aprendi a ouvir o barulho do solo.
Às vezes podia se saber quantos inimigos vinham e em qual direção, e qual distância,
Às vezes podia se saber se você está sozinho o bastante para acampar e dormir essa noite,
E aprendi à ouvir e entender o silêncio. Algo mais precioso que a vida.
E que principalmente, pode salvar a sua vida.

Um dia, quando os tremores cessaram, e os barulhos pararam, o silêncio dominou aquele milharal.

E eu emergi do solo.

O meu mundo estava acabado.
O céu estava vermelho de ódio,
E o solo vermelho de lágrimas de sangue.

No milharal haviam teias vermelhas,
E o sol... O sol brilhava negro no céu vermelho.

Eu comecei. Comecei a minha vingança.
Puxei o guarda-mão da minha espingarda, uma cápsula vazia caiu,
Coloquei outra e empurrei o guarda-mão.

Hora de esmagar baratas.

Croatt

Conceito

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