Erik, The Red - 14 - Requiem

by domingo, abril 07, 2013 0 comentário(s)
Para você que não está entendendo nada ou que quer recomeçar a ler a série: 




Muitos diriam que a busca que percorri até aqui, foi uma busca motivada pelo amor. Mas não é verdade, a busca que me fez chegar até aqui é uma luta contra a escuridão. Existe em todos nós uma escuridão, cheia de maldade e incerteza. A luta que tenho travado é contra meus próprios demônios e meus próprios medos.

Quando todos caem, somente a bondade pode te salvar.

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Cristiane me olhava com seus olhos castanhos, enquanto os milhares de lagartos saíam de frestas recém-abertas nas paredes e nos vitrais. Em alguns segundos, meu mundo inteiro desmoronou. Nada daquilo podia ser verdade, não era um deus aquele que me caçava? Onde eu realmente estava? Vivia eu, na realidade, no mundo onde nasci? Os olhos de Cristiane passaram do castanho para o negro cintilante, suas roupas ficaram mais leves, e a armadura dourada moldou-se em panos leves, finos e com um tom levemente da cor de ouro polido.

- Surpreso? - Cristiane me disse.

Ali estava eu, ajoelhado e Fábio que estava logo atrás de mim, deixara a espada cair. Ele ficou parado sem resposta por alguns instantes, depois abaixou e pegou a espada novamente quando percebeu os lagartos prontos a atacar. Eu não tinha palavras. Tudo o que eu acreditava, tudo o que eu construíra até aquele momento, nada daquilo parecia fazer sentido. Porque tantas coisas pareciam fazer pouco sentido agora?

- Porque? - Balbuciei em tom baixo, mas olhando nos olhos dela.
- Você nunca saberá. - Cristiane disse e logo se virou para um lagarto maior que estava ao seu lado - Mate-os.

Ainda não conseguia me sentir ali, não conseguia sentir as minhas pernas no chão, e mal conseguia sentir o ar que corria pelas frestas abertas naquele templo pela entrada dos lagartos. Consegui desembainhar minha espada, me levantei zonzo e olhei para frente, com três lagartos correndo para mim. Eles vinham de todos os lados.

- ERIK, ACORDE! - Fábio gritou - VAMOS MORRER! ACORDE MEU AMIGO!

Não havia mais sentido. Toda a procura que fiz até ali fora em vão. Não existia motivo de porque continuar. Aquele era o local em que tudo se resolveria, e nunca tudo esteve tão bagunçado, tão destruído. Nenhum de nós sobreviveríamos ali, nem mesmo a verdade conseguiu sobreviver. Tudo fora uma mentira.

- AAAAAAAAAAAAAAAAAARRHHHH - Gritos ensurdecedores começaram a ecoar nos corredores daquele castelo, gritos conhecidos... Gritos Vikings.

Fábio sentiu um machado cruzar o ar próximo a sua orelha e acertar a cabeça de três lagartos que vinham me matar. Quando olhou para trás, Gabriel estava lá junto com milhares de Vikings que entravam sem parar por todos os cantos, matando, cortando, abrindo caminho e destruindo cabeças.

- DE NADA, AGORA COMEÇA A MATAR! - Gabriel gritou para Fábio, e isso ergueu seu ânimo.

Fábio começou a cortar cabeças. A primeira, essa deve ser bem descrita, vinha de cima. Um lagarto descia pela coluna, esperando pegar Fábio desprevenido pelas costas, assim que Fábio sentiu um perigo vindo de cima, ele se agachou para dar mais tempo até o que o lagarto chegasse até ele. Apoiou as costas no chão e ergueu uma de suas pernas que bateu exatamente no peito do lagarto. A espada já estava preparada logo acima do peito de Fábio, então foi só empurrá-la enquanto passava pelo pescoço do animal. Sangue de lagarto jorrou por toda sua armadura, o que deu um ar sinistro ao resto das lutas, enquanto ele matava mais lagartos, com pura agilidade, seus olhos estavam cheios de pura raiva ou seria de calma?

Gabriel estivera mais distante, mas atacava com machados e com a balestra, um em cada mão, era um exímio atirador a longas distâncias. Um lagarto se aproximava pela frente, mirou Gabriel e começou a correr com toda agilidade de que dispunha, Gabriel estava olhando para o lado direito, enquanto ele vinha pelo lado esquerdo. Gabriel ergueu uma machadinha e atirou em uma direção próxima desse lagarto, o lagarto deve ter pensado "errou", quando este teve que fazer um desvio para a esquerda por causa de um grupo de lagartos mortos por Fábio, percebeu que Gabriel não havia errado. O machado atravessou seu crânio, como faca quente corta manteiga, menos um.

Eu ainda estava olhando para Cristiane. Um grupo de veteranos Vikings haviam notado o meu estado e estabeleceram uma formação de proteção ao meu redor. Ainda estava zonzo, mas continuava em pé. Às vezes algum lagarto passava a barreira de proteção e eu conseguia acertá-lo, mas não tão forte. Alguns ficavam vivos mas sem membros, o que lhes causava a morte por pisoteamento, tanto por amigos quanto inimigos. Cristiane estava sentada no altar. Eu estava a 10 passos longos dela, e não conseguia dar um passo sequer.

Havia um sorriso no seu rosto, ou seriam lágrimas? Não conseguia ver direito. Consegui dar um passo, e ela atentamente se virou para me olhar. A roupa que vestia, embora tivesse um leve tom de ouro, chegava quase a ser branca. Dei outro passo, e mais outro, e outro. Cristiane ordenou que os lagartos não me ferissem por enquanto, que abrissem caminho. Eu pedi aos meus irmãos Vikings que abrissem caminho.

- Tem certeza irmão? - disse um veterano que usava um capacete com chifres.
- Sim, tenho irmão. Devo continuar até o fim. - Consegui balbuciar.

Eles abriram caminho e eu dei mais três passos, enquanto olhava para Cristiane. Ela estava sorrindo, chorando? Ela estava com raiva? Não conseguia compreender. Cheguei até ela, deixando apenas um passo curto de distância entre nós dois. Sangue espirrava por todos os lados, o caos da luta se seguia apenas a um fim: um massacre. Comecei a olhar para aquele templo que se tornara uma arena, dando as costas por alguns segundos para Cristiane. Muitos Vikings estavam morrendo, e não parecia fazer diferença entre o número de lagartos mortos. Aliás, parecia que muitos mais irmãos haviam perdido suas vidas do que monstros. Gabriel e Fábio lutavam agora costas a costas, estavam cercados, mas haviam matado mais de mil lagartos que se espalhavam ao redor sangrando com machados nas cabeças e o dobro de cabeças sem corpos espalhadas no chão. Me virei para Cristiane novamente, olhei em seus olhos escuros, não totalmente, mas profundamente escuros. Ela ergueu sua mão para mim e com um gesto, pediu que eu a acompanhasse. Começou a dar a volta no altar e a andar na direção da parede, enquanto eu a seguia. Olhei novamente para trás, e quando olhei para Cristiane, eu não estava mais naquele templo. Olhei novamente para trás e apenas vi nuvens. Estava pisando em uma pequena camada de neve, uma plataforma de pedra de 2 passos longos de cada lado se encerrava em uma camada grossa de nuvens se estendendo por todos os lados até alcançar o sol que nascia naquele distante horizonte. Estava frio, mesmo com minha armadura, nunca havia sentido tanto frio em minha vida, não parecia um frio comum. Era um frio que aterrorizava a alma.

Ergui meus olhos para ela.

- Eu enfrentei todo esse tempo, milhares de tormentos, milhares de jornadas em busca de você. - Eu disse e perguntei - O que os lagartos fizeram com você?
- Os lagartos não fizeram nada comigo.
- Mas e o ataque a vila? Eles te sequestraram!
- Nunca houve um ataque de lagartos. Eu destruí todos da vila. Matei a mulher de Fábio e suas filhas durante à noite, enquanto dormiam. Destruí e arranquei o coração de todos que estavam ali, e com eles, alimentei os lagartos que me cederam seu exército.
- Mas... porque você... fez tudo isso? - Eu disse e fechei os olhos para conter as lágrimas.
- Eu não fiz. Foi você.

Meus olhos se abriram e eu me vi na sala do templo com Cristiane deitada no altar e milhares de mortos ao meu redor. Olhei para frente e vi Fábio morto com a garganta dilacerada apoiado inerte em um banco do templo e Gabriel deitado de bruços um pouco atrás de Fábio, com um corte profundo atrás de sua cabeça ainda jorrando sangue. Olhei para mim, e vi que minha mão estava segurando uma faca fina feita a partir do material da armadura com partes do lenço que Cristiane havia me dado. A faca que eu segurava estava fixa, presa em um corpo rígido, imóvel e que sangrava por todo altar, sangue este que já estava seco em alguns pontos. Ela estava morta, pelas minhas mãos. Meus amigos e todos os meus irmãos estavam mortos. Não havia sobreviventes.

Cristiane me olhava com olhos calmos, como se seu último suspiro fora pura bondade. Tirei a faca e tentei ressuscitá-la, mas era tarde mais. Quanto tempo havia passado? Como eu pude destruir tudo ao meu redor? Ajoelhei e tentei deitar no colo frio dela. Estava frio, sem vida, sem batimentos. Fechei seus olhos com minhas mãos, aqueles mesmos olhos castanhos que um dia me disseram o quanto me amavam.

Lágrimas saíam de meus olhos, profundas, quentes, salpicavam meu rosto e caíam no colo de Cristiane, escorrendo e se misturando ao seu sangue que molhava suas vestes brancas que se coloriam com um tom vermelho. Olhei para um vitral que estava meio quebrado, deixando a luz do sol entrar. No vitral se encontrava um homem ajoelhado perante um altar de sacrifício. O sangue que jorrava do altar cobria o homem por completo. Seus olhos estavam fechados, e lágrimas saíam deles. No mesmo vitral, mais abaixo, o mesmo homem estava só. Caminhando em direção as estrelas mais luminosas do céu, buscando algo inexplicável, algo inalcançável. Apenas tolos procuram algo que nunca vão alcançar.

Quando voltei o olhar para o templo, não havia ninguém. O altar estava limpo, sem sangue. Cristiane não estava mais ali. As frestas na parede pareciam nunca ter existido e o banho de sangue que havia ocorrido naquele lugar, nunca parecia ter acontecido. Não havia ninguém lá, eu estava só com minhas lágrimas. Pisquei e quando abri os olhos, estava novamente acima das nuvens, numa plataforma de pedra, sem poder alçar nada acima, e sem saber se existia algo abaixo das nuvens.

Olhei ao meu redor, e enquanto o sol se punha, eu retirei minha armadura Hiperbórea. Ela se encolheu e voltou a ser apenas uma bola negra que cabia na palma da minha mão. Coloquei no chão ao meu lado e assisti a estrela maior deixar de queimar o céu para que as menores brilhassem nele.

Senti um vento frio vindo do horizonte onde o sol havia se posto. Ou teria vindo de dentro de mim?

Em segundos fiquei extremamente fraco. Tentei me manter sentado e não consegui. Deitei e olhei as estrelas. Não havia ninguém ali. Ninguém viria ao meu resgate. Eu estava só.

A vida é uma palavra, soprada ao vento. Não existe algum idioma que a escreva. Não existe algo que a preencha. É apenas um som leve, que passa por alguns outros sons. As estrelas foram se apagando, e meu mundo se desmoronou. Olhei para fora, lá estava ela, naquele instante através da janela, subindo a colina até minha casa. Cheguei em casa, sorri para ela enquanto colocava mais lenha no forno. Não, eu estava apenas ali, deitado.

Então minha consciência se tornou um grão em um turbilhão de estrelas, que levemente se apagaram.

Trilharia só a ponte de milhões de espadas.

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