Ramificações

by quarta-feira, julho 17, 2013 0 comentário(s)
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Há muito tempo atrás, talvez até mais tempo do que alguém possa realmente contar, existia um rapaz que vivia em sua tribo, isolada da existência de outras tribos, assim como todo um mundo. Caso algum dia, alguma pessoa pesquisasse sobre essa tribo, descobriria que suas tradições e seus costumes eram sempre muito bem priorizados, ensinados e principalmente, fixados.

Esse mesmo rapaz, dito no parágrafo anterior, vivia todos os dias de sua vida de uma maneira normal, talvez considerada exemplar. Porém, um dia, o rapaz andava por uma parte da floresta que não havia descoberto. Ele percebeu que sempre, todas as vezes, ele chegava à margem do rio, lavava suas roupas e voltava para casa. Mas nesse dia, algo estranho acontecera, não sabia como, mas ele estava pisando em uma parte da floresta depois do rio, e apenas ouvia o barulho das águas correndo bem distantes dele. Não havia caminho para nenhuma direção, apenas árvores e folhas que o cercavam por todos os lados.

Os dias passavam, e esse rapaz, continuava ali, sem saber pra onde se mover. Apenas o sol e a lua conversavam com ele todos os dias. O sol o torturava com sua luz intensa, seu calor escaldante, a lua brilhava plena sobre ele durante à noite, fazendo com que seus pensamentos se acalmassem e seu corpo pudesse relaxar. Passaram-se meses, anos, o garoto havia crescido, estava agora um jovem-adulto, mas continuava ali, preso naquela parte da floresta. Com a juventude, veio a coragem e os pensamentos rebeldes. "Se eu seguir em alguma direção, pra onde vou? Onde pararei? Estarei eu em outra parte escura da floresta, talvez até pior do que essa?" ou até mesmo "Se eu continuar aqui pra sempre, o que tenho a perder? O sol me tortura todos os dias, mas a lua me ilumina durante à noite". (Selecione uma opção no próximo parágrafo)

Opção 1:
Ele decidiu se mover, levantou-se, escolheu uma direção e mergulhou entre as folhas. Existiam mais folhas, então ele continuou a correr. Correu até passar pelo rio, seguiu até chegar na sua antiga vila. Não existia mais nada, apenas cinzas, nem pessoas mais existiam, então ele continuou a correr, desesperadamente, sem parar. Correu na direção em que o vento soprava, passou por montanhas, vales, até que o vento mudou de direção, e ele atravessou tediosas e longas planícies, repletas de calor puro e arrasadas pelo fogo que algum dia havia passado sua língua por aquelas terras.

O vento indicava a direção, seus pés apenas se moviam o mais rápido que podia. Os anos passaram, e seu corpo não suportava mais viver com tanta dor. A fase adulta havia chegado e apesar da dor, o peso que seus ombros carregavam era gigantesco, mas ele continuava a andar, a correr, até que chegou à um abismo. Não havia fim, apenas o som do mar que batia em rochas em algum lugar ao fundo. Não existia lugar pra voltar, nem o vento apontava outra direção. Era aquela, era ali e agora. Precisava de saltar, mesmo que estivesse tudo errado, mesmo que a vida em si se provasse incerta, e o sol e a lua, demonstrassem que ele estava em um lugar enganado. (Selecione uma opção no próximo parágrafo)

Opção 1:
Os momentos continuavam passando, e ali estava ele, parado, admirando o abismo, e esperando que o vento mudasse de direção, mas não mudava. Nunca mudaria, aquele era seu destino, seu objetivo. Mergulhar na escuridão. Os anos passaram, e agora aquele rapaz era velho, continuava á beira do abismo em que o vento soprava tentando empurrá-lo. Não havia outra escolha. Saltou.

Enquanto caía, seus ossos se tornaram vidro e sua alma se despedaçou. Seu corpo ficou cansado, com sono, com extrema vontade de adormecer. Quando fechava os olhos, alguns pensamentos corriam-lhe a mente, "Porque o vento sempre soprou uma direção? Porque eu nunca escolhi minha própria direção por toda minha vida? Ao menos essa dor tem fim". Caiu eternamente, e o tempo passava enquanto seus ossos se tornavam pó e sua dor se tornava maior que o peso de um milhão de dores.
Opção 2:
Não havia outra opção. Saltou. Seu coração batia depressa e o peso de milhares de monstros saíam de suas costas, sua vida era preenchida agora de pura escuridão, não existia retorno, exatamente por isso, enquanto caía ele não olhou para trás, de onde havia caído. Se ele tivesse olhado, talvez ele observasse que alguém caía com ele.

Os anos continuavam a passar, mas agora, repleto de pura escuridão, não havia como saber qual era sua idade, ou quem era, na verdade, não havia nada ali para saber. Apenas puro vazio. O chão se aproximava, o som do mar batendo nas pedras estavam mais próximos. Antes de bater contra eles, antes de que toda sua vida se findasse, antes de o som do mar batendo nas pedras fossem completos por um baque surdo, ele sentiu apenas um leve flutuar, e talvez um observador que estava sentado no fundo do abismo, vestindo seu escafandro e com seus olhos acostumados à escuridão, pudesse ter notado que antes de ser eternamente destruído, ele voou uma única vez.
Opção 2:
Com os anos, que continuaram passando, o sol e a lua, eventualmente sumiram. Apenas era noite, e as folhas que antes o cerceavam a opção de correr, não se sabia se estavam ali ou não. Não era possível vê-las nem ao menos saber onde estavam. Porém, o rapaz percebeu que não era o mundo que mudara, não era o mundo que se apagara, eram seus próprios olhos. Não havia mais tempo que o controlasse, nem momentos que pudessem ser insubstituíveis, o jovem era cego e com nada mais precisava se preocupar. Ele se levantou, mas logo pensou se realmente estava levantado.

Como saberia? Pela sensação dos pés? Mas ao mesmo tempo, ele tinha sensações efêmeras por todo o corpo, como saberia onde estava seu apoio? Não saberia. Mas continuou a tentar tatear o espaço à sua volta. Existia ao seu redor uma clareira, disso lembrava claramente, cerca de folhas densas e árvores altas, sim, era isso. Só precisava andar cinco passos em uma direção retilínea e estaria tudo bem. Pisou uma, duas, três, havia alcançado as folhas. Estavam mais perto do que ele imaginava que grande sorte! Quando puxou as folhas densas, um vento soprava forte da sua direção, mas como não enxergava, apenas podia usar sua precognição para se guiar, se ela ainda funcionasse. (Selecione uma opção no próximo parágrafo)

Opção 1:
Os olhos não funcionavam tão bem, mas sua habilidade de prever a consequência da próxima ação podia ajudá-lo nisso. Andava em direção ao futuro, ou melhor, na direção oposta ao vento. Seus pés estavam mais calejados, mesmo porque não os usava havia muito tempo. Quanto tempo seria? O que seria o tempo? Porque seus dias pareciam se encerrar cada vez mais, e suas costas ficavam mais recurvadas cada vez que dava mais um passo na direção contrário ao vento. Quem seria esse que soprava em sua direção? Porque ele continuava a soprar? Já não bastava... Começou a cair, era um passo em falso.

Não havia sensações que descrevessem como era cair em pleno vazio sem apoio e ainda estar cego. Era apenas um frio profundo na barriga, uma dor que penetrava a alma direta e continuamente. Caiu pelo vazio aterrador, suas mãos tentavam alcançar algo, mas logo percebeu que elas não estavam mais ali. Suas pernas que antes balançavam tentando achar apoio, agora balançavam em algum outro lugar, porque ele não podia senti-las mais, seu corpo, seu nariz, sua boca, sua voz que estava chamando por socorro, nada disso estava mais ali, só aqueles dois primos, o vento e o tempo, que brincavam com ele enquanto caía. Depois de algum tempo, nem eles estavam ali mais, nem o medo de cair, nem a dor. Não havia alma também, a escuridão profunda da cegueira roubara tudo. Mas restara algo, perante à existência. Talvez o fôlego de vida, talvez a essência, algo transcendental, restara algo ante à porta da existência que fechava rapidamente, não saberia o que era, apenas sentia ali, agitada, tentando sair... Não caiu. As portas se fecharam antes.
Opção 2:
Porque sair, ali estava tão belo. Fechou as folhas novamente, e o vento parou de soprar. Mas decidiu que não, que queria sair dali, mas já era tarde, as folhas não estavam ali. Seus braços agitavam no vazio, seu corpo balançou sem energia até que caiu. Mesmo sem poder ver, inclinou sua face para cima, e sentiu o calor fritar sua pele. Talvez fosse o sol querendo torturá-lo um pouco mais, ou talvez fosse a lua, que estava se vingando por quase ter sido trocada pela direção oposta do vento.

"Tolinho, não pode ganhar", uma voz ecoou pela escuridão. Queria gritar quem estava ali, mas não conseguia, não havia mais voz, não havia mais nada a sentir. "Você é um jovem inteligente, bonito, pode ter uma vida boa se assim quiser". Quem dizia isso? QUEM? "Seja feliz, limpei as lágrimas que suas memórias belas me dão, em outra camisa, outro objeto, outro, outro e mais outro" De onde vinham essas vozes que ele mal podia reconhecer? O que era camisa? O que era um objeto? Vivera a vida toda em uma tribo afastada e agora, ali, perdido depois de tanto tempo... Espera, que barulhos eram esses? Eram ritos! Era isso! Estava em casa! Não eram pesadelos, eram apenas os ritos que sua... Não, não eram. Não havia como se enganar. O calor era contínuo agora, a sensação era fria, porque talvez sua pele não estava mais ali, ou talvez o frio fosse dentro de algum lugar em si.

O vento soprou uma última vez, mas agora era velho. O tempo e o vento, divinos cruéis, o sol e a lua, vingadores pelo acaso. Não chegou a voar, seus pés na verdade, não existiam mais. Nada existia, nada era verdade. Até sua própria natureza, findaria ali, longe de casa, atravessando o rio, naquela clareira que todos da tribo sempre conheciam e passavam todos os dias para colher frutas no bosque.

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