História Experimental: Final Feliz

by segunda-feira, setembro 02, 2013 0 comentário(s)
Em um instante, andava pela rua. Era uma rua irregular, feita de pedras mal-encaixadas, algumas mais ao canto com lodo e outras lustradas de tantas pessoas que por gerações, haviam passado ali. A bicicleta estava ao seu lado, sendo empurrada na direção acima da rua. O dia passava depressa enquanto seus passos o guiavam até aquela casa específica. Não importava a distância, continuava a andar.

A rua que antes subia, ficou um pouco mais plana, e foi possível começar a pedalar. Começou a subir aquelas ruas cheias de pedras mal-encaixadas, pensando se algum dia, elas se encaixariam de tanto as pessoas pisá-las. Olhou para ele mesmo ali, subindo, fazendo mais uma ação. Porque tantas ações? A vida não poderia ser vivida sem tomar tantas ações destrutivas quanto ao mundo?

Pensava nela. Seus cabelos ao vento, olhando para o horizonte distante. Seus olhos suavemente colocados no rosto, e sua face sorridente, cada detalhe. A pequena marca ao lado da boca, ocultando a pintinha, quando gargalhava. Olhava pra aqueles olhos, naquela época, como quem acaba de descobrir o significado da vida e porque valeu a pena doer tanto até ali. Talvez fosse assim novamente.

Estava chegando perto, as horas passaram rápido, andando de bicicleta pelas estradas cheias de sol, cheias de luz incandescente, qualquer dor era suportável, o que importava era chegar ali. Era seu destino.

Se aproximou da casa que lutara tanto para chegar. Encaixada em outras casas menos importantes, em que o escritor não perderá tempo descrevendo-as, lá estava aquele prédio. Havia uma casa de contabilidade na frente, e atrás o prédio dela se estendia para baixo, construído em uma depressão. Que irônico, "construído numa depressão". Mas na verdade, era construído em um barranco.

Finalmente, chegara até ali. Estava parado, contemplando seu destino. Foi uma longa jornada, até ali, foi tão especial fazê-la. Agora tinha uma nova perspectiva sobre tudo, o tempo em que estivera andando de bicicleta, tudo havia mudado. Fora possível pensar em tudo. Agora, tudo seria diferente.

O pequeno portão que separava a casa de contabilidade e o prédio da rua se abriu, e lá estava ela, saindo. Era ela, será que sabia de sua vinda? Será que ela estivera esperando todos os dias por ele, até que ele chegou ali e ela sentiu que ele vinha?

Um outro homem saiu pela pequena porta, logo atrás dela, a puxou pela cintura e a beijou intensamente.

Enquanto eles se beijavam, um ser se despedaçava.

Primeiro foram as boas memórias - enquanto a língua daquele homem estava na garganta dela - todas elas se desfaleceram e foram consumidas por chamas. Lembrou-se dela na rede, com os pés pra cima, esperando a tarde passar, e ao invés de continuar ali, levantou-se e saiu pela porta mais próxima, deixando ela ali, na rede, sozinha. Lembrou do sorriso enquanto eles tinham sono e estava deitados no colo um do outro - enquanto as mãos dela tocavam atrás da cabeça daquele outro homem clamando por desejo - ao invés de continuar deitado, chorou, e a levantou cuidadosamente, ela perguntou "porque?", ele apenas saiu dali. Lembrou-se do aeroporto, quando se viram depois de tanto tempo e se abraçaram, como se tudo que importasse no mundo pudesse ser colocado entre dois braços, e naquele momento podia. As mãos do outro homem tocavam o corpo, passavam por toda a pureza e a despedaçava, a destruía. Passavam por todo amor o transformava em simples e passageiro desejo. No aeroporto, dentro de sua cabeça, nunca havia estado lá, era apagar.

Olhou mais uma vez, pra ter certeza de que tudo havia mudado. Mas dessa vez não olhou pra ela, olhou pra dentro. Tudo havia mudado aqui dentro dele. Nada sobrara.

Ela se despediu do outro homem, que a deu um tapa na bunda antes de ir. Ele se foi por uma das ruas acima. Ela fechou o pequeno portão, e o ficou olhando enquanto ia embora. Não olhou para cima, pra onde estava o rapaz que viajara de bicicleta para chegar até ali. A porta foi fechada. Nada disso. Nada disso nunca aconteceu. Pegou sua bicicleta e voltou para casa.

Enquanto voltava, os carros passavam rápido, era uma oportunidade única. Eles não freavam ao andar próximo da bicicleta, nem diminuíam a velocidade. Andou até o meio da estrada, os carros passavam buzinando de um lado e do outro. Em curvas, podia sentir os ventos da direita o empurrando pra cair na esquerda, e o vento da esquerda o empurrava pra cair na direita.

Os carros e caminhões passavam rápido, em curvas, era quase impossível prever que havia algo no meio da estrada, era apenas questão de tempo.

Um carro tirou seu equilíbrio, batendo no guidon da bicicleta pelo lado esquerdo, sua roda começou a virar para o lado esquerdo. Como estava em uma descida, foi levado rapidamente para uma grande queda de um barranco fora da estrada. Sua bicicleta foi embora, caindo cerca de 100 metros e se destruindo completamente com o impacto. Ele havia saltado antes de cair. Ele havia saltado. Porque?

Algumas árvores baixas ampararam seu mergulho , e ele não chegou nem perto do precipício.

Fora alguns arranhões, um pouco de sangue, ainda havia dor. Não era a dor da perna quebrada pelo impacto na árvore, nem do peito com a camisa rasgada por causa dos galhos, com o peito cheio de espinhos. Não era a dor de tê-la perdido, e ter se forçado à esquecer as memórias que a compunham. Não era a dor de vê-la beijar outra pessoa. Não era a dor de viver. Era a dor da morte.

A morte, muitos diziam que ela era bela, a ausência de dor. Mas porque tantas dor ali, porque sentia que perdia algo essencial ali, naquele instante? Sentia como se tirassem um fluido que o mantinha vivo. Sentia aquela falta, como a maior dor que um ser humano pode experimentar. O coração ia batendo mais fraco, as mãos não pressionavam mais com tanta força. As extremidades do seu corpo estava insensíveis, e o peito era o único lugar que existia calor, mas que ia se esvaindo, ia embora. Seus olhos ficaram cansados, e pediram para que ele os fechassem. Sua cabeça teve pensamentos... lentos. Mal podia... completar uma fr... Respiraç... lent... suspiro... suspiro...

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- RAPAZ, RAPAZ! Acorda! Mantenha os olhos abertos! - Joaquim dirigia um caminhão desde os 15 anos, aprendera com o pai o trabalho, e era conhecido por levar cargas de baixo risco nos menores tempos possíveis.

Uma vez, levara de Ponte Nova à Ouro Preto uma carga de cerveja Brahma. Todos os depósitos de Ouro Preto estavam vazios e o lugar mais próximo pra abastecer as repúblicas de álcool, era Ponte Nova. O pedido foi feito no começo da manhã, e logo no final da manhã, as festas de Ouro Preto foram contempladas com novas quantidades de álcool. Joaquim era um exemplo. Joaquim que era um homem de verdade. Quando passou perto daquela curva, e viu um garoto totalmente machucado, com fraturas expostas na beirada da estrada, parou o caminhão e colocou um triângulo de aviso há alguns metros atrás do caminhão, antes do começo da curva.

- oi... - o rapaz tentou dizer.
- RAPAZ, QUAL O SEU NOME? Fique acordado - Joaquim pegou as mãos ensanguentadas e pálidas do rapaz e pegou o telefone no bolso, discando a emergência - POR FAVOR, VENHAM RÁPIDO, ACONTECEU UM ACIDENTE AQUI NA ESTRADA DE PONTE NOVA PRA OURO PRETO!
- Meu nome é E... - o rapaz desfaleceu e seu corpo entrou em choque.

Joaquim não sabia muito o que fazer, mas lembrava-se vagamente do treinamento da caminhoneiro para emergências feito pela empresa há tempos atrás, colocou a mão sobre o coração daquele rapaz. Nenhum sinal. Não havia vida ali. Joaquim desesperou-se. Deitou o rapaz, colocou suas mãos sobre o peito, e tentou pressionar o coração para fazê-lo voltar à vida. Enquanto fazia respiração boca-a-boca, pressionava o peito do rapaz. Nesse meio tempo, outras pessoas haviam chegado, pessoas que não sabiam como ajudar. O coração do rapaz bateu fracamente, depois que ele insistiu. Os olhos do rapaz abriram-se pouco, um sorriso correu-lhe a face. Era um sorriso de pura dor. "Quando se está em meio à dor, acostuma-se à ela", pensou Joaquim. O rapaz perdeu sua vida ali, na beira da estrada.

Joaquim esperou a ambulância chegar, e a seguiu até o hospital mais próximo. Não havia identificação com o corpo. E ninguém entendia como tantos machucados haviam acontecido. O corpo foi doado à Universidade Federal de Ouro Preto para estudos em medicina, embora a Universidade Federal de Viçosa também o quisesse para abastecer seus novos laboratórios.

Joaquim continuou a trabalhar de caminhoneiro, e pensava no rapaz todos os dias, até que um dia, Joaquim morreu em uma batida violenta e parou de pensar também. Infelizmente não sobrou nenhum pedaço de Joaquim pra ser doado pra nenhuma Universidade.

Croatt

Conceito

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