Não resta muito tempo agora

by quarta-feira, setembro 25, 2013 1 comentário(s)
Ao fim, um recomeço. Não tive tempo pra descansar. Havia muito a ver, muito a observar. Os poucos segundos que sentei em cada calçada e observei durante horas as pessoas passarem em ruas distintas, os outros segundos que caminhei observando o espaço ao redor, em cada detalhe, cada sorriso, cada fração de segundo. Cada um deles está caindo agora.

Imagine milhares de grãos de poeira, caindo nos seus ombros, cabelos, olhos, cílios, pêlos, corpo. Tais milhares de grãos de poeira são tão fascinantes quanto o céu. Essas memórias sempre estarão lá, sempre serão belas de se olhar, mas só se pode senti-las e torná-las reais, se você lá estiver. É como se assentar em um banco frio e aguardar o apocalipse. Ele nunca virá. É como correr em direção ao oriente e buscar a noite. Ela virá, mas irá embora antes que você realmente possa apreciá-la.

Essas coisas acontecem todos os dias. Você acorda, olha pra fora, existe sol, existem nuvens, vento, ar, são coisas tão incríveis que fazem falta à qualquer ser humano, e mesmo assim, sua falta apenas é sentida quando sua ausência é apreciada. Começando por esses conceitos básicos, podemos passar adiante.

O ser humano, constante mudança, então. Exatamente. Por favor, não me diga que alguma população é mal-educada, ou é extremamente direta, objetiva. Somos todos humanos. Todos preguiçosos, nojentos, felizes, tristes, limpinhos, enfim, infinitos. Apesar da língua que muda, os valores e a moral permanecem os mesmos. Alguns estão mais acostumados com o frio, outros com o calor. Outros estão acostumados a comer com os pés, outros com as mãos. Raros são os que podem respirar embaixo d'água.

A chuva que molha aqui, também é molhada não importa aonde você for. Acredite, é sim. As pessoas também morrem. Inclusive se estiverem em um metrô lotado em Buenos Aires, e o trem tenha que ser evacuado. Os acontecimentos, as perspectivas mudam. A visão muda. E é justamente aí que está a diferença. O que é belo à você?

Um sorriso belo e sincero na boca de uma dama, uma arquitetura magnífica e bem desenhada em um prédio, um céu escuro e cheio de lágrimas lavando a alma?

O que é belo à você? Talvez uma tarde ensolarada, porém fria, com as crianças de mãos dadas com seus pais, voltando da escola para casa. Tirando os casacos quando chegam à porta, e entrando no ambiente aconchegante, usualmente nomeado lar. Talvez seja o sorriso bobo de um garoto que acaba de pedir uma garota em casamento, bem ali, em um bairro pouco conhecido, em uma vizinhança diferente mas não indiferente. Ou o sorriso da vendedora que perguntei o nome, um nome belo, Flor. Talvez.

A mim é belo tudo isso. Talvez o mais belo seja o pedacinho de carne tirado do dente da menina de três anos - por ela mesma - que pedia moeda no metrô, e que ela me ofereceu, caso eu estivesse com fome.

O mais belo é a humanidade.

O que nós fazemos, muitas vezes é sem sentido.

O tempo continuava passando, sem parar. Eu acho que não percebia como ele passava tão rápido. Acho que o ignorava.
Não resta muito tempo agora.

Croatt

Conceito

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