"Apaga a Luz"

by segunda-feira, novembro 04, 2013 0 comentário(s)
Um dia pensei o que aconteceria caso o Universo tivesse fim. Eu queria muito assistir. Meio que inspirado na série "O Guia do Mochileiro", no livro "O Restaurante no Fim do Universo" - embora eu tivesse pensado na idéia de assistir o fim do Universo antes de ler o livro (comecei a ler pelo segundo livro) - fiquei refletindo sobre essa memória durante muito tempo. Como um Universo acaba? Seria uma bolha, que assim como diversas outras, simplesmente estoura em uma existência rápida e infinita? Seria uma contração de toda matéria que tenta se expandir pelas barreiras do desconhecido? É interessante saber o significado das palavras. Na verdade, Universo significa exatamente o que o nome quer dizer, vem do latim, unus significa único e versus é o passado de vertere, tornar. Já pensou nessa palavra? Unus, tudo bem até aqui, único, significado simples. Mas versus? É o passado do verbo tornar, muito similar ao verbo fazer, mas totalmente diferente. Tornar é um verbo utilizado pra tentar explicar algo que volta a ser o que era antes. O fim do Universo. O fim de algo único que sempre retorna a ser algo único.

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Acima de um cometa, um homem estava sentado. Era um dos últimos cometas que existiam girando ao redor da maior estrela jamais vista, maior do que qualquer astrônomo já prevera, com calor e gravidade tendendo ao infinito. O homem observava calmamente a trajetória do cometa ao redor da estrela gigantesca, que continuava a crescer, engolindo os planetas mais próximos. Infelizmente, aqueles planetas estavam cheios de vida. Vida que mal acabara de tomar consciência de si mesma. Era uma sincera perda. Nesse curto espaço de tempo, em um planetinha verde-azulado, alguém havia previsto isso tudo. Um cientista que agora estava sentado em um cometa. Fora ignorado, mas não fazia mal, de qualquer forma, não havia escapatória. Tudo estava ali, bastava sentar e assistir.

Seus olhos eram azuis, os cabelos e barba talvez um pouco maiores que o normal, presenteavam a face juntamente com linhas sinceras de gentileza e linhas severas de maldade. Mas não uma maldade comum, era aquela maldade que não deixavam mais as lágrimas caírem dos olhos. Pelo menos não em público. Sua roupa era grossa e totalmente fechada, também protegida contra as enormes radiações emitidas por aquela futura supernova. Havia um pequeno tanque de produção de oxigênio, apenas o bastante pra assistir na fila da frente, enquanto as cortinas se fechavam suavamente. Mentira. Não havia nada de suave nisso.

As luzes eram incríveis, as correntes magnéticas emitidas pelo puro hidrogênio sendo eliminado daquele núcleo eram fascinantes. O fim estava próximo. Era possível sentí-lo. Era possível até esticar a mão e tocá-lo. Tudo estava no próximo minuto, talvez segundo, talvez milissegundo, talvez só mais um instante. Então aconteceu. A estrela primeiro explodiu, em todas as direções, arremessando o cometa com o cientista para a borda de tudo que se sabia existir. E tão logo expandiu, se encolheu, passando do azul celeste até o mais profundo negro, se tornando do tamanho de uma ervilha. Uma ervilha que continha uma massa quase tão infinita, talvez até infinita, capaz de sugar todo o Universo ao redor. E foi isso que aconteceu. As grandes nebulosas, cheias de poeira cósmica com cores azuis, vermelhas e até cores que olhos humanos comuns nunca poderiam se maravilhar. Lugares frios, lugares quentes, berços de estrelas e outras galáxias, em seus giros lentos, totalmente atraídas pelo buraco negro que continuava a ganhar mais e mais massa, mas continuava cada vez diminuindo. As bordas começaram a ser puxadas, e o cometa se viu fazendo uma trajetória em linha reta em direção ao buraco negro. Não havia o que fazer, era apenas esperar o que viria depois, ou o que não viria.

A vida se extinguia por todas as partes, desde incipiens até finis, desde os recentes descobertos vírus inteligentes até os mais avançados seres compostos de matéria escura. Nada escapava ao fim. Nada escapa ao fim. Este livro, escrito aqui nesse cometa. Nada escapa ao crepúsculo do Universo. O que se tornará depois? Quem nós seremos? A pergunta e a resposta não vivem nunca no mesmo Universo. Mas se o próprio Universo torna a ser o que antes era... Algum dia, a pergunta será encontrada?

Essa última memória. Enquanto estava indo dormir, me aprontando para o sono noturno. Apenas ouvi uma voz antes de me deitar. "Apague a luz".

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