Loucuras em noites de céu azul-escuro-vermelho-vinho

by quarta-feira, novembro 13, 2013 0 comentário(s)

Muitas vezes a vida fica confusa. "Ah sério, você chegou nessa conclusão só agora?" Não, não é desse jeito. Ela fica realmente confusa. "Ta, qual a novidade até agora?" Nenhuma. Era só isso, boa noite.

É o seguinte. Às vezes, os instantes realmente não precisam ter significado. Na maioria das vezes, eles não tem. Sabe, aqueles momentos incríveis que você viveu, olhando o horizonte, dizendo uma frase aleatória enquanto o sol estava se pondo? Não teve nenhum significado. Entende o que eu quero dizer? Mesmo que a realidade mude pra cada pessoa - e ela muda - existem tantas pessoas no mundo, que pra maioria delas, aquele instante não vai significar nada. E na verdade, considerando uma existência mais ampla, com uma visão de todo o Universo, a própria vida não tem significado algum. Não precisa ter. Nunca precisou ter. O próprio significado é o que foi dado à aqueles instantes, aquela pessoa que parecia especial, aqueles momentos. O objetivo em si, foi inventado pelo próprio ser, feito pela própria imaginação.

Já pensou nisso? Não é só uma afirmação sem sentido ou uma proposição. Às vezes as pessoas parecem ser algo e depois mudam pra outra coisa, simplesmente porque as suas próprias impressões estavam aplicadas sobre a vida da outra pessoa. Como se fosse possível prevê-la, ou até mesmo colocar um significado fixo em algo móvel. Aliás, tentar colocar um significado em qualquer coisa já é um grande ultraje.

Existem algumas coisas que nunca é possível mudar, dentre elas, a morte, o passado e o pensamento de outra pessoa. Da forma contrária, o significado é alterável. O significado de algo é totalmente induzível, manipulável, mudado e até roubado. É como se fosse o produto de uma imaginação doentia - a nossa - que coloca algo no lugar onde não existe nada. Coloca em palavras significados de vidas. Palavras são só palavras.

Sabe, na era passada, atos eram importantes. Imagine só, acabamos de viver no Brasil uma grande parte da história que foi feita de pessoas que cumpriam o que diziam. Não que as coisas estivessem nos papéis, porque não estavam. Mas as coisas eram ditas. Se um político dizia que ia cuidar da família que o ajuda na sua eleição, ele realmente iria cuidar, pois sua palavra era como um juramento sagrado. Os negócios, durante muito tempo, foram feitos com voz, e nada mais que voz. O dinheiro era passado, e as coisas eram feitas, sem a necessidade de contratos ou palavras escritas. A vida era construída através de palavras ditas em voz alta e atos. Entramos então, em uma era de palavras escritas. Não se pode processar um político por ter dito algo que ele não cumpriu. Apenas se pode esperar que ele cumpra. Não se pode processar judicialmente alguém por um serviço contratado por meio de uma conversa e pagamento, sem contratos, que não tenha sido cumprido. A era da voz oficialmente acabou na maioria dos lugares. A era das palavras escritas começou.

Então, o que seriam as palavras, as cartas escritas, as dedicatórias, a literatura, os livros científicos se não mera tentativa de oficializar o que foi dito, o que foi pensado antes? Imagine que não fosse necessário que você precisasse de uma linguagem pra se comunicar. De que outra forma você se comunicaria? Gestos, atos, desenhos? Ainda sim, isso é um tipo de linguagem, uma forma de comunicação. Tudo bem até aqui, mas e os seus pensamentos? Como você pensaria sem ter acesso à uma linguagem escrita ou falada? Como poderia pensar?

Uma vez, pensei em uma situação. Um homem nasce, cresce e agora ele tem 35 anos. Porém, durante esses primeiros 35 anos, todos os seus sentidos - audição, olfato, tato, paladar e visão - estavam desligados. De alguma forma, uma doença ou um problema no nascimento, para ele, nunca seria possível ter nenhuma comunicação com o mundo exterior. O que esse homem pode fazer? Será que em algum momento dos 35 anos, ele teve sequer um único pensamento? Como ele poderia sequer ter aprendido a imaginar, será que é algo que se aprende, ou às vezes é o único caminho? O que aconteceria conosco se por tanto tempo o único jeito de viver era usar a imaginação? Agora, com todas as perguntas que acompanham essa situação, imagine que um dia ele abre os olhos. Olha ao seu redor, sente o cheiro da cama em que ele estava deitado, ouve os barulhos vindos das árvores que ele vê além da janela - muito embora, ele não saiba o que elas são - sente o gosto salgado da saliva na sua boca e respira o cheiro de seu próprio corpo, mal familiarizado com ele. Quem tal homem seria? Como ele seria? Como ele saberia se diferenciar de tudo que sua imaginação poderia ter proposto a si? Ou até mesmo, como poderíamos saber que existiu uma imaginação, se ele mal poderia falar sobre ela, visto que nunca aprendeu a linguagem padrão com que todos se comunicam. Talvez até, ele venha a tentar apenas uma linguagem. A linguagem que todos os seres humanos vivos usam pra se comunicar, sabendo ou não os outros idiomas, os sinais. Como até mesmo alguém que mal sabe usar o corpo para reproduzir algo, poderia reproduzir um pensamento, algo tão único e solitário?

Qual a linguagem que usamos quando queremos falar das almas, e não dos corpos?

Quais significados poderiam colocar em mundos que mal foram conhecidos, e até nos que foram conhecidos? Nenhum significado. Pois não há.

O real sobre o homem, o que se torna óbvio no momento em que ele abre os olhos - ou pelo menos, algumas reflexões mais tarde - e olha para si, é que de forma clara e evidente, ele existe. O mundo é sensível aos seus dedos, mãos, braços, corpo. Talvez, o mundo que existiu em sua cabeça fosse apenas imaginação, apesar de tudo. O mundo sensível, o exterior, era o mundo que existia realmente. Imagine que de alguma forma, os músculos desse homem não estivessem atrofiados. Ele se levanta da cama que o sustentou durante 35 anos, e conhece seus pais, seus irmãos e seus sobrinhos. Anda mais um pouco e consegue um bom emprego, daqueles bons empregos que são necessários anos de trabalho duro pra se ter sucesso, como todos os outros empregos. Consegue caminhar mais longe e conhece uma mulher que consegue não entendê-lo, mas aceitá-lo e rir de algumas piadas que sejam mais ou menos engraçadas. Mais uma vez, ele consegue dar alguns passos. Chega até o final.

Olha para tudo o que pôde fazer naqueles anos que se passaram desde quando ele nasceu, com 35 anos. Se lembra de como era viver dentro de si, de como era possível que um mundo inteiro fosse criado, sem palavras. Lugares incríveis e coisas nunca vistas, simplesmente feitas por uma mente que não era limitada pelas palavras, e sim, livre. Livre através do silêncio.

Mas imagine também que talvez nada fosse criado. Nenhum lugar, nenhum pensamento, nenhum significado. É como se o homem, tivesse meditado durante 35 anos. Segundo Osho, meditar é sentar-se sem fazer nada. Não usar o corpo nem a mente. O que não usar nenhum dos dois faria a um homem durante 35 anos?

Ainda, pense só mais uma vez, se ele não tivesse acordado nunca, teria ele vivido?

O que é viver?

Talvez seja só uma loucura. Talvez seja só eu aqui, colocando o significado de que tudo isso fosse só uma loucura.

Existem vários caminhos. Vários caminhos que levam a diferentes lugares. Diferentes lugares que levam a outros caminhos. E em todo o processo, a única coisa que muda é o significado. Qual significado você escolhe dar a vida? Talvez essa seja a pergunta final. Sabe a resposta? Nenhum.

O pensamento é falso porque ele não guia a nenhuma resposta útil ao ser. As emoções são enganosas porque elas não sabem onde ir, sem que o pensamento, a razão as conduza. O corpo não pode ir a lugar algum sem nenhum dos dois. Um corpo sem pensamentos e emoções é um corpo vazio. Uma casca sem vida. E ainda, um ser. Uma existência, sem um corpo, sem um pensamento e com nenhuma emoção não é uma existência. Não existe chama sem que exista vela, nem pavio. Essa é a beleza de viver.

Existem memórias que nunca se vão. Esperanças e desejos que talvez durem para sempre. Existem até significados escondidos embaixo de cada pedra que cruzamos pelo caminho, significados que muitas vezes, nós colocamos lá. Mas ainda sim, tudo isso, é simplesmente uma grande bobagem sem sentido algum. Fique feliz por isso. Se tivesse um sentido, provavelmente todos nós já estaríamos tão longe dele, que não haveria qualquer salvação.

A escolha é simples. A decisão é trivial. Você quer dar mais um passo ou continuar dormindo?

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