História Experimental: Ouro Preto

by domingo, dezembro 15, 2013 0 comentário(s)

Era uma noite comum. As casas históricas da era barroca estavam desenhadas na rua, junto aos lampiões do século 18 europeu, agora elétricos, preenchendo as laterais da rua de pedra com pouca calçada. O cenário lembrava uma cidade antiga, principalmente com os monumentos aos heróis e santos antigos, mas as placas eram do século XXI. Algumas mostravam a localização de todos os prédios históricos. Uma noite comum em Ouro Preto nunca é como uma noite comum em qualquer outra cidade.

O ar transmitia umidade às pessoas que ali andavam. A rua não estava cheia, na verdade, apenas um casal andava por ela. Estava frio e o casal estava tentando encontrar um pouco de calor em um abraço. Eles andavam em direção à praça principal. O monumento para Tiradentes, um suposto herói nacional, estava sujo por causa de um dia inteiro cheio de turistas que haviam o visitado.

Os dois não falavam nada, não porque não havia nada a dizer, mas porque o silêncio era agradável. Ele olhou para ela, a abraçou forte e ela o abraçou de volta, apertando o mais forte que podia. Ela disse que o amava, ele disse que a amava, era uma dessas noites comuns de amor puro e real.

O calor começou a aquecê-los enquanto eles estavam sentados na pequena elevação do monumento. Havia tanto a dizer, tantas coisas que poderiam estragar aquilo ou tornar tudo sujo, triste, ele pensou. Não se sabe o que ela pensou. Talvez ela só apreciasse aquele momento. Mas se sabe o que ela disse:

- Amor, seus olhos ficaram tão distantes. Esta tudo bem?

Ele não queria mentir, mas não havia como perder aquele olhar dela ali para ele. Eram olhos sinceros, apenas pediam verdade e nada mais.

- Está sim, não se preocupe amor - mentiu ele.

Eram as palavras erradas para o momento errado. A vida seria outra a partir dali. Mas era preciso aproveitar o momento.

- Você pensa em vir estudar na UFOP?
Ele considerou por alguns instantes. Pensou em todos os motivos que não permitiam que ele estudasse ali.
- Que demora pra responder, parece que está narrando essa história.
- Estou, daqui a algum tempo. Eu não sei, acho que eu vou pra UFV. Aí teremos acesso à duas Universidades.
- Amor, olha esse céu - ele disse - é incrível - lágrimas desceram e a culpa pesou nos ombros dele.
- Porque você está chorando?
- Só um pouco de nada. Vai ficar tudo bem.
- O que você está pensando? Da pra perceber quando você diz algo que não é o que está pensando.

Um fusca passou atravessando a praça Tiradentes. O monumento se encontrava no centro da praça. Era ampla e a rua, cheias de pedras. Existiam casas grandes ali, as janelas grandes como portas, com uma margem azul ao redor da janela que dava para pequenas varandas. O estilo barroco era realmente dominante ali. Duas grandes casas se opunham nas extremidades da via: a velha Escola de Minas da UFOP e o Museu da Inconfidência. Nas laterais, que eram mais próximas, existiam casas usadas para lojas ou áreas turísticas. Ele observou todo cenário antes de falar.

- Eu te peço perdão amor, existem coisas que escondi de você durante todo esse tempo. Hoje foi um dia incrível, passeamos por quase toda Ouro Preto. Fomos a lugares que vão ficar marcados na minha memória para sempre, e vão ficar lá só porque você estava neles. Só porque nós nos entendemos tão bem e os sorrisos preenchem meu peito como nenhum outro. Mas eu devo dizer isso e digo com tanta tristeza que depois de dizer, sinto que não tenho outra opção senão ir embora com vergonha de você.
- Que introdução em... fala logo.
- Eu cometi erros para com você e com toda a sua família que confiou em mim, que me acolheu com o mesmo sorriso que se dá a um filho.
- Ta, diz.

A noite ganhou um vento frio enquanto ele contava, as palavras saíam frias, como lâminas que cortavam laços que nunca mais poderiam ser amarrados, principalmente por serem curtos. A dor crescia do peito dos dois, mas parecia que enquanto um deles perdia o peso das mentiras, o outro decidia carregar. Ao fim, só havia dor, onde antes havia amor. O sorriso foi substituído pela amargura que contorcia o rosto.

- E agora, o que será de nós?
- É por isso que você não quer vir pra Ouro Preto?
- Não, eu só quero poder ter um futuro melhor com você. Um daqueles em que o curso na faculdade vale alguma coisa, mesmo que não seja possível buscar um sonho.
- Pode esquecer a palavra "nós". Ela não existe mais. Eu e você, não existimos mais.
- Tudo bem, você tem todo o direito de escolher isso. Eu vou pegar o último ônibus pra BH...
- Ok, adeus - ela percebeu que ainda estava abraçada e havia enchido o peito dele de lágrimas. Soltou-se violentamente dele. Se levantou e começou a andar, sem olhar para trás.
- Ah... Tudo bem...
- Amor? - ele gritou, mas ela não parou nem olhou para trás. Ele completou: - Realmente está uma bela noite, olhe as estrelas um pouco....

Ele a viu, ainda sentado, virar uma esquina em direção ao ponto de ônibus de volta para a República dela.

Ele chorou antes de se levantar e começar a andar lentamente para a rodoviária. Às vezes ele olhava para trás para ver se ela vinha para abraçá-lo e aceitar seu perdão, mas não havia ninguém lá. Foi uma subida laboriosa e lenta. Os pés se arrastavam e o peito estava vazio. Pareceu que estava a beira de um precipício duas vezes. A primeira ele pulou, mas por sorte existiu alguém para segurá-lo, mesmo que fosse uma completa estranha em um país longínquo. A segunda vez foi sozinho, com uma corda amarrada no telhado, sem volta, sem vida. Era simples, e a coragem transpunha o peito para fazê-lo. Não se sabe como não aconteceu. O ônibus partiu antes que se notasse, em direção a BH, com destinos obscuros e um futuro incerto.

Dizem que sempre que ele não olhava para trás , ela olhava pela esquina para ver se ele estava bem. Quando ele pegou o ônibus, ela olhou para o céu e disse em voz baixa: - Realmente meu eterno amor, o céu dessa noite está lindo.

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