História Experimental: Cimetière

by domingo, abril 13, 2014 0 comentário(s)
Era uma manhã fúnebre. A chuva caía como um manto cinza e pesado de um céu recheado de nuvens densas. Nuvens de escuridão sólida. Não passava nenhum fio de luz através do céu e mesmo se passasse, ninguém realmente queria saber. Caixões se empilhavam no subsolo marrom daquela terra de superfície ampla e gramada, cercada nas extremidades por grades negras de ferro enferrujado. Poucas pessoas estavam ali, no centro daquele vasto terreno de fantasmas, em parte porque quase ninguém conhecia sequer o nome do morto. Aliás, até a parte que conhecia, não tinha motivos para ir até lá pegar chuva à toa.

Uma camionete com a pintura velha e desgastada descarregava o caixão para as condolências antes de ser atirado no vazio da terra. De todos os 25 filhos do homem, apenas uma filha, a caçula - a que teve menos tempo com o pai para ser traumatizada - era a única por ali. Não havia uma esposa. Se houvesse, talvez ela não estivesse chorando também. Provavelmente ela estaria vestida com roupas repletas de cores, sorrindo em alguma tribunal na França, disparando orgulhosas e audíveis gargalhadas pelo cadáver que finalmente voltava para o barro.

A filha se aproximou do caixão, apenas ela dentre os outros fantasmas ali, pois era a única que tinha coragem de ver aquele rosto pela última vez. Aquele rosto que destruíra milhões de pessoas. Aquele rosto que havia envenenado a alma das pessoas mais próximas, preenchendo-as de puro ódio. A filha se vestia de preto, não pelo dia fúnebre, mas porque de todos os outros, ela era a mais parecida com o pai. Ela carregava um guarda-chuva, com um forte tom de amarelo.

- Em parte, pai, concordo com você. Tudo aqui, realmente se parece muito com o texto que você colocou no Croatt. É uma pena que eu não tenha achado nenhum guarda-chuva com um forte tom de amarelo, apenas restavam os vermelhos na loja que comprei.

Os olhos dela encheram-se de lágrimas, que não saíram, enquanto durante um longo momento, olhava para o caixão aberto. O corpo recebia diretamente a água da chuva, escorria-lhe pelas faces velhas e se juntava às poças no fundo do caixão. Quase uma piscina. Não havia proteção.

- Eu não reconheço as pessoas que vieram, talvez porque o senhor nunca deixou que eu as conhecesse, nunca me deixou fazer parte da sua vida. Fico imaginando se eles foram seus melhores amigos, amigas. Fico imaginando em que ponto os caminhos deles e do senhor se separaram, apenas se unindo aqui. Há tantas linhas de expressão nos rostos deles que eu mal sei distinguir que parte é rosto, que parte são as marcas da alma. Sinto falta dos seus gritos pai. Neles eu, ao menos, podia ver um pouco do que havia na alma do senhor.

Um pastor jovem havia chegado para fazer uma oração. Dizia que o dono do corpo ora fora de uma igreja chamada Adventista, e mesmo ausentando-se a alma do morto, que havia retornado "para o hálito de Deus", queria fazer uma oração pelos parentes e amigos. Foi assim que eles começaram a ir embora. O pastor iniciou a oração e quase todos ali, que se contavam entre 5 e 10 pessoas foram embora. Apenas ficou uma pequena senhora. O rosto era simpático, aparentemente o tempo não fora tão cruel com ela. A filha do cadáver olhou para trás e a viu, como também viu a barreira que se estendia entre as duas. Uma barreira social, daquelas que não permitem que ninguém fale com ninguém na rua, no elevador, na fila do banco e em um enterro.

Não importava. Qualquer barreira não importava ali.

- Oi, qual o nome da senhora? - disse a filha.

Os olhos da senhora perduraram longamente olhando na direção do caixão, agora distante. Então vagarosamente olharam para o rosto jovem que a observava atentamente a menos de um metro de distância. O rosto da senhora tentou esboçar alguma expressão assustada, mas logo notava-se porque não conseguia fazer isso com sucesso: botox.

- Quem é a senhorita que não respeita as convenções sociais? - disse a senhora.
- Sou Sofia Moreira, filha do cadáver - A senhorita olha para o colo da mulher e percebe um colar no pescoço da senhora. Um colar cuja história, ela conhece.
A senhora percebe que Sofia observa o colar e diz:
- Muito prazer senhorita Moreira.
- O que a senhora veio fazer aqui? É tarde. Os mortos não vão as próprios enterros.
- Ah, minha querida Sofia. Antigamente... - a senhora se reservou a um curto silêncio e olhou para o chão, enquanto avaliava a palavra "antigamente" e tocava o próprio rosto - ...antigamente, as coisas eram menos complicadas.
- Senhora, se me permite dizer, as coisas nunca foram complicadas. Eu sei quem você é. E tenho uma carta pra você - Sofia puxou no bolso do sobretudo uma carta envolta em uma papel plástico e entregou à pequena mulher de cabelos desgrenhados e cinzentos vestida do negro que perpetuava sem cessar no céu.

Pelo plástico se via algumas palavras escritas em letra de forma. Algumas formavam a frase "je t'aime". A senhora começou a esboçar uma pergunta:
- Você...
- Sim, eu li antes de te entregar. - Sofia se despediu com um leve aceno na cabeça e voltou para perto do caixão.

Os coveiros estavam segurando os relógios, dizendo que estavam com pressa, mas Sofia calou-os com uma nota de 100 euros.

- Pai, o senhor sabia que ela viria, da mesma forma como eu sabia. É engraçado que sua vida toda você tenha se sentido tão só, querendo só alguém pra ter uma boa conversa, e eu aqui, sua própria filha... tão igual à você. Pai, eu vou embora, preciso terminar muitas coisas antes de voltar pra casa. Sinto sua falta... Não, não vou dizer obrigado. Seu velho chato.

Naquela final da manhã, Sofia se dirigiu ao portão principal do cemitério a passos rápidos enquanto as lágrimas caíam junto à chuva. A senhora continuou olhando enquanto os coveiros desciam o caixão no poço de terra. Ela demorou-se até o caixão desaparecer.

- Adeus, meu amor.

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