Pièce - Parte I

by sábado, setembro 20, 2014 0 comentário(s)
"A poesia se escreve com lágrimas, o romance com sangue e a história com águas passadas" - Carlos Ruiz Zafón

Era cruel vê-la à mercê da sorte. Não que exista problema na sorte, afinal, todos vivemos dela. O grande erro era que ela vivia à mercê da sorte dele. Seus olhares, suas sensações e, provavelmente, a vida que crescia incessante em seu ventre, dependeriam dele.

Se algum dia você os visse passeando pela rua, veria que andavam através de tempo e cicatrizes. Sempre se perdiam, pois nunca sabiam para onde ir. Caso você chegasse mais perto, perceberia os sinais. A mão dele segurava sem ânimo a mão dela. A todo momento ela o olhava pedindo claramente uma pequena atenção, enquanto ele sempre olhava para baixo, mirando os próprios pés. Alguns sorrisos nervosos saíam da boca dele quando ela tentava dizer algo feliz no ouvido dele. Enfim, pode-se dizer que tudo aquilo tenderia a uma destruição completa de ambos.

Aos olhos dela, porém, ele era perfeito: seu silêncio era poesia e suas palavras, embora cruéis, revelavam a verdadeira natureza do ser. Aquele filho seria a surpresa perfeita. Haviam meses, que segundo ela, ele escondia algo que com toda certeza era que iriam se casar. Para ela, não restavam dúvidas, eram um do outro, os corpos deles entrelaçados traziam paz e prazer. Agora eles estavam indo até um restaurante "romântico" nas esquinas de Paris, com certeza ele a pediria em casamento ali.

O restaurante se chamava "L'Amour" e era localizado no bairro 20ème, um dos bairros mais pobres e sujos de Paris. "Restaurante" era o que estava escrito na placa, na verdade, era um quintal sujo de uma casa mal construída que havia desabado em partes. Os escombros ainda estavam espalhados armazenando lodo e fungos. Muita vida nascia ali, principalmente no bordel que funcionava nos cômodos que restaram da casa. 

Assim que chegaram, uma mesa lhes foi indicada próximo ao bordel, e enquanto ouviam o som de uma prostituta em serviço, foram recebidos pelo garçom, um homem baixo, peludo e com rosto suado vestindo um avental manchado de algo muito parecido com sangue:

- O que vocês vão querer? - disse, pegando um pequeno bloco de notas.
- O melhor que alguém pode me dar agora, é minha morte - disse o companheiro dela.
Os olhos dela instantaneamente se encheram de lágrimas e sua voz saiu rouca, quase apagada:
- Não digo isso mon amour... - deixando as lágrimas se ocultarem, ela disse ao garçom - Maître, gostaríamos de ver o cardápio.
- Cardápio não tem, tem miojo, vai querer?
- Tudo bem, pode ser.
Quando o Maître saiu, os olhos dela pousaram longamente sobre ele e contemplaram aquele rosto anestesiado de melancolia. Havia morte nos olhos dele. Era como se ao invés de fitar a mesa, fitava atentamente a face da morte.
- Fique aqui comigo, eu preciso de você - ela.
- Não, não quero - Ele se levantou e passou pela "cozinha" do restaurante, uma barraca coberta de lona e aberta dos lados, e continuou, indo em direção à saída.

Ele não disse adeus, mas ela o viu antes que ele pulasse da Pont des Artes, onde há um ano eles haviam colocado um cadeado enunciando seus amores. A ponte era baixa e ele não morreu na queda, mas morreu afogado nas águas do rio Sena, pois não sabia nadar.

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Sozinha ela vagava pelas ruas, não havia outra chave para casa senão aquela no bolso de um corpo morto no fundo do rio Sena. E também não havia ninguém além daquele que crescia em seu ventre onde poderia buscar ajuda. Perdida, vagou pelas ruas como uma mendiga maltrapilha. Vivia do alimento podre e intragável que encontrava no lixo. Comia os vermes e os bolores de alimentos nojentos, cheios de insetos e porcarias. Disputava seu espaço entre os ratos, cachorros e outros animais que viviam nas ruas. Tinha amantes com doenças e que cheiravam como ela, fazendo sexo e rebolando em colos por restos de cascas de maçãs. Meses se passaram. Uma barriga proeminente se revelava, um monstro talvez? Um verme que extraía suas forças?

Em uma noite, ela começou a sentir muita dor e sangrar como nunca antes. O seu atual parceiro, deitado com ela no meio de caixas de papelão, começou a gritar com sangue nas mãos. Os prédios próximos ouviram os gritos e alguém chamou uma ambulância. Mais tarde no hospital, um demônio nascia. O rosto era deformado, os braços e pernas eram curtos demais, e a saúde era precária. Ela saiu pela porta após reconhecer aquele rosto que a espiava por trás da face do recém-nascido, aquele rosto que ela vira se afogando no Sena. Ela saiu sangrando e quase sem vida. Mais tarde, a encontraram. Morta após cortar a própria barriga e apertar o próprio intestino com as mãos até morrer.

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O menino não tinha nome. Provavelmente nem teria. Os médicos discutiam o futuro dele, aquele não era um hospital público e o tratamento seria caro. Porém, tranferí-lo dali seria morte certa, a única chance dele estava ali. Um dos médicos era um idoso chamado Irving, sem mulher nem filhos. Não se sabe se foi intervenção divina ou se o coração do velho Irving fôra finalmente encontrado, mas ele se ofereceu a manter o menino ali, vivo, com seus próprios recursos. Qual seria o nome do garoto? "Não se dá nome à peças que logo morrerão", dizia Irving com seu velho bom humor.

A cada dia, Irving ia até o berçário e fazia os procedimentos padrões de limpeza das vias nasais e de alimentação. Limpava tubos, verificava restrições ou possíveis obstruções e mantinha o menino vivo. Algumas vezes, o bebê abria os olhos e olhava Irving com aqueles olhos grandes e negros. Irving parava um segundo e admirava-se em ver aquela peça lutando pela vida mal feita que o compunha. 

Existiam dias que as batidas do coração da criança eram tão fracas quando o vento no rosto em um dia morno. Em outros dias, faltava ar quando um equipamento parava de funcionar. A vida do bebê sempre estava por um fio e Irving sentia que segurava aquele fio com as próprias mãos. Sentia a responsabilidade daquela vida que agora se apoiava sobre seus velhos ombros, mas ao mesmo tempo, sentia aquele ser crescer cada dia tão solitário e abandonado quanto ele. 

Os médicos do hospital às vezes encontravam Irving perdido em pensamentos olhando a incubadora da "peça sem nome" no horário de almoço. Perguntavam o que ele estava fazendo ali e a resposta era sempre a mesma:
- Estou tentando resistir à tentação de desligar os aparelhos.

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Quando o quinto ano havia se passado, Pièce era uma criança razoavelmente sadia. Ele nunca deixava o hospital e passeava todos os dias pelas mesmas alas: Saía do seu "quarto" cedo e ia até a cantina do hospital. As "mães", ou como ele as chamava, entregavam os salgados mais recheados e os doces mais apetitosos a ele em uma bandeja. Então, com os doces nas mãos, ele passava pela ala dos pacientes terminais, distribuindo quitutes e guloseimas, servindo café, cumprimentando os novos pacientes e às vezes, chorando em um canto escondido, quando um paciente não estava mais lá. 

Ele sabia o que havia acontecido com eles. Não havia ilusões, quando o primeiro paciente que era amigo dele faleceu, ele perguntou a Irving porque o amigo dele tinha ido embora, e Irving respondeu:
- Ele não foi embora, ele morreu ontem sufocado no próprio vômito. A máquina não conseguiu detectar a obstrução dos tubos de respiração e ele agonizou por horas até morrer.

Aquelas palavras desde então, perfuraram o coração de Pièce e fizeram um abrigo entre um e outro átrio.

Hoje, porém, era um dia especial: Pièce iria à escola. Irving não estava feliz com isso. O menino mal havia aprendido a andar, como ia sobreviver lá fora, segundo ele, seria impossível. A sorte de Pièce era que as leis da França eram bem rígidas quanto à isso, ou ele iria à escola, ou o responsável legal, Irving, perderia a guarda do menino. 

Cedo, nesse mesmo dia, Irving chegou ao hospital e foi até o quarto de Pièce. "Nem deve estar pronto, moleque preguiçoco", ele pensou. Quando abriu a porta, um amontoado de cobertas revelavam um Pièce dormindo. Foi andando na direção da cama e puxou as cobertas: nada. "Onde aquele moleque se meteu?". 

Se virou e quando deu o primeiro passo em direção à porta aberta, Pièce estava do lado de fora do quarto, com o uniforme da escola e a mochila nas costas. Ele leu o olhar de Irving e disse:
- Levantei cedo, precisava fazer umas coisas.
- Sei. Vamos embora. Amanhã te encontrarei lá embaixo na portaria do hospital. Hoje só vim aqui porque tenho outro paciente nesse andar - ele não tinha, Pièce sabia.
- Tudo bem pai - Assim que Pièce disse isso, ele sentiu um calafrio do olhar que Irving o fez.
- Já disse uma vez e só direi mais uma: NUNCA mais me chame disso.

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A escola de Pièce era uma das mais tradicionais de Paris. Além do ensino comum, os alunos tinham aula de desenho, música, informática, vários idiomas e física experimental, esse último era onde aprendiam a serem cientistas desde cedo. A grande maioria de seus colegas de classe eram filhos da classe alta da sociedade francesa. 

A única exceção era o pequeno grupo de bolsistas que estudavam com os pais em casa desde os 3 anos de idade para aos 5 anos disputarem quatro vagas em uma prova que os alunos só aprenderiam a fazer aos 10 anos. Rapidamente, esse grupo de bolsistas se tornaram amigos de Pièce, uma vez que os cinco tinham apelidos vergonhosos na sala. Seus colegas de sala, nomearam Pièce de foucul, ou melhor, louco-burro.

Diego, um dos amigos de Pièce, era o mais criativo dos cinco, inventara mundos e construía histórias onde os outros eram guiados entre nações longínquas e governadas apenas pelo fogo.

Johan era o mais inteligente. Aprendera a falar francês perfeitamente aos 5 meses de idade, e ao completar um ano, falava alemão, espanhol, russo e um pouco de mandarim. Seu pai o abandonara por achar que o filho era um demônio nascido da barriga de sua mãe, que morrera no parto. Quando foi mandado para o orfanato, as freiras logo o apelidaram de demoniozinho, mas ele era tão carinhoso e atencioso que o apelido não ficou por muito tempo. Começou a estudar aos dois anos de idade, sozinho e dos dois anos aos cinco, fez a prova para entrar no colégio, tirando a nota máxima em todas as vezes. Porém, só aos cinco anos foi aceito.

Francesco era o mais novo e o mais baixo  dentre os outros, filhos de imigrantes italianos que serviam refeições em um restaurante de classe alta em Paris. Os pais se revesaram para cuidar dele e ensiná-lo a matéria da prova, variando seus turnos no restaurante. Era também o mais calado.

Sophie era a única presença feminina do grupo. Como não era rica, não conseguia andar com as meninas populares, e nem queria, na verdade. Sophie tinha um sorriso puro, mas cheio de dentes com cárie. Seus pais eram os mais pobres dentre todos os pais que estavam ali. Eles haviam colocado todo dinheiro ganho extra, o que os alimentaria se não tivessem emprego, para pagar a inscrição da prova. Vindo de uma família simples, ela recorrera ao único lugar onde tudo o que ela precisava saber estava: a Bibliothèque nationale de France em Paris, gigantesca e com milhares de livros. Ia sozinha pela manhã e se enterrava em milhares de livros e mundos. Vivia milhares de vidas e sentia milhões de peles em sua própria pele.

No primeiro dia de aula, todos olharam enquanto seus cabelos vermelhos passeavam pelo vento, e os cheiros de seu shampoo, ou melhor, sabonete "para cabelos", segundo sua mãe dizia, se espalhava na sala. Foram bons anos aqueles. Os outros alunos tinham inveja dos cinco amigos, pois eles eram os mais inteligentes da sala. 

Os professores tentavam sempre privilegiar os outros alunos com ajuda durante as provas, alguns professores chegavam até a dizer as respostas para os filhos de pessoas importantes e ricas, mas não havia notas que se equiparassem ao pequeno grupo. 

Ainda eram pequenos, mas enquanto cresciam juntos, aprendiam sobre a vida juntos e quando os pais ou freiras permitiam, se encontravam em uma festa de aniversário de um ou do outro.

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Pièce cresceu cercado de quatro amigos verdadeiros, que lutavam por ele e ele por eles. Quando fez 16 anos, ele começou a morar com Irving. Não havia mais desculpas para mantê-lo no hospital e o menino agora era um garoto quase homem. 

Os primeiros dias foram difíceis para Irving, acostumado a viver só. Mas Irving sabia que enquanto os anos passavam para Pièce, para ele não era diferente. Agora com 80 anos, era hora de se aposentar do hospital e começar a deixar a mesa de cirurgias pelos bancos de jogadores de xadrez nas praças de Paris.

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O dia nasceu chuvoso naquela semana. Era sinal de que dias terríveis estavam por vir. Pièce acordou em seu quarto no sótão de madeira da grande casa de Irving no centro de Paris. O perfume de Sophie ainda estava em seu corpo e, a ausência dela na cama, revelava que saíra no meio da noite, quando todos dormiam. Seus cabelos vermelhos deixaram alguns fios presos ao travesseiro de Pièce. O céu cinzento revelava o frio que estava lá fora e a chuva incessante no telhado, o peso da água que batia nas ruas e acumulavam em poças nas calçadas.

Já estava na hora de se levantar. Ergueu-se da cama e a arrumou, limpando qualquer sinal do que acontecera ali naquela noite como aquela mancha escarlate de sangue que ainda estava bem evidente no colchão, mesmo depois que os lençóis foram retirados. Os sabores experimentados ainda brincavam em sua língua e o suor seco, que não era seu, ainda grudava no seu corpo, com aquele cheiro inebriante dela. 

Vestiu uma das roupas jogadas no chão, pegou sua mochila e saiu da casa em direção ao colégio. Às vezes parava e contemplava aquela manhã chuvosa e os guarda-chuvas apressados atravessando as ruas. A torre Eiffel despontava no horizonte. Nunca tinha ido até lá. Era o bastante vê-la e guardá-la em poesia ao longe.

Chegou na hora em que estavam fechando o portão do colégio. Antes de entrar, notou um homem do outro lado da rua, vestido com terno negro apoiado em um guarda-chuva fechado e seco, enquanto a chuva caía pesada do céu. Virou a cabeça na direção do homem, para tentar gravar seu rosto, ele abriu o guarda-chuva e o ergueu antes de ser visto totalmente. Quando o homem estava longe, Pièce tentou se lembrar se o vira de relance, mas sua memória apenas devolveu duas faíscas que brilhavam no lugar dos olhos e o rosto do homem era uma incógnita.

Ao chegar na sala, cumprimentou seus amigos e não encontrou Sophie sentada onde gostava de se sentar.
- Johan, você viu Sophie?
- Porque eu a teria visto, caro Pièce?
- Não sei, só queria deixar claro que eu perguntei por ela.
- Tudo bem, está anotada sua preocupação - disse Diego, com um olhar desconfiado.
- Vocês vão brigar comigo - disse Francesco.
Todos olharam para ele e Johan perguntou:
- Porque?
- Eu vi Sophie ontem, bom, na verdade, hoje de madrugada.

Pièce achou que seria delatado, mas ficou calado.
- Ela estava andando na rua sozinha e alguém a parou. Era um homem de terno negro, eles conversaram um segundo e então Sophie começou a chorar. Em seguida, ela abraçou e beijou o homem. Eu achei estranho no começo, mas eles pareciam bem íntimos. Ele a abraçou e começaram a andar na direção de uma limusine parada do outro lado da rua. Ele abriu a porta e ela entrou como um cachorro adestrado. Antes que ela mergulhasse na escuridão do carro, ela me viu do outro lado da rua e seus olhos estavam cheios de terror. Seus lábios se moveram e li "ajude-me". O homem notou minha presença e então comecei a andar para me disfarçar. Ouvi o carro negro partir, mas quando olhei para tentar ver a placa, embora ouvisse ainda o barulho do carro se afastando, ele não estava lá, talvez estivesse muito escuro.... mas tive medo...
- FODA-SE com seu MEDO! PORQUE você não fez nada PORRA?

Pièce notou seu tom de voz quando todos olharam pra ele. O professor entrou na sala e reparou que todos estavam olhando para Pièce.
- O que aconteceu? - O professor disse e pensou "Irving bateu as botas e você está na rua, molequezinho de merda?".
- Nada professor - disse Pièce.
- Tudo bem alunos, hoje, aprenderemos uma coisa bela da matemática, integração...

Pièce se virou para Francesco e disse baixo:
- Me perdoe, perdão pessoal, é só que noite passada Sophie estava comigo, ela chegou no meio da noite e disse que me amava...
- Pièce, você é louco? Sophie esteve na minha casa ontem a noite e nós fizemos coisas incríveis... - disse Johan.

Pièce teve um misto de raiva e dúvida, mas antes de dizer algo, Diego disse:
- Vocês dois idiotas, ela estava comigo ontem, não estou brincando, parem de tentar serem engraçados, não tem graça.
- Que estranho, que horas você receberam a visita de Sophie ontem? - perguntou Johan.
- Onze horas - disseram todos, inclusive Francesco.
- E que horas ela foi embora?
- Não sei, ela foi embora depois que adormeci - disse Pièce.
- Mesma coisa... - disse Diego.
- Também não sei, pois acho que adormeci. No meio da noite ouvi a porta do meu quarto se abrindo e acordei. Vesti minha primeira roupa e fui atrás dela, e o que eu contei antes, aconteceu. Quando cheguei em casa, já era hora de vir pra aula.

O silêncio dominou o pequeno grupo durante o resto da aula. 

Tentavam unir os fatos, mas existiam muitas lacunas, procuraram sinais de que talvez tivesse sonhado, mas carregavam ainda o perfume de Sophie e seus cabelos vermelhos presos aos próprios lençóis.

Apenas restava uma única questão:

Onde estava Sophie?


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