Limbo clama atenção

by quinta-feira, outubro 01, 2015 0 comentário(s)
Eu simplesmente não sei.

Não sei mais como explicar porque eu me sinto assim. Percebo algumas coisas porém. Percebo o quanto fomos inexoravelmente outras pessoas enquanto estivemos juntos. Percebo o quanto todas as verdades que dissemos foram tão rápidas e insossas que quando realmente notamos o que havíamos dito, tudo já havia acabado e as juras de amor eterno eram apenas essas promessas que você encontra nas embalagens de produtos em suas prateleiras.

Eu não entendo como foi que você me encontrou depois de todo esse tempo. Não sei nem se o que eu disse que 'eu era' pra você agora bateu com a descrição do que você sabia sobre mim antes. "Olha, eu sei que acabamos de nos conhecer, mas isso é a mais pura verdade. Tudo o que acontecer a partir daqui será exatamente assim."

Eu me pergunto em vários dias o que nós realmente pensamos sobre nós mesmo e o que realmente somos. Trabalho com isso, reflito nisso e a única solução que encontro é que não somos nada. Nada, meu bem.

Penso sobre a garota que entrou na minha vida nesses últimos meses. Eu não sei se devo convidá-la para entrar ou deixé-la na porta. E se ela for estranhar cada parte de mim: E se ela for destruir cada quarto, sala e cozinha que eu esperava que ao menos arrumados estivessem enfim.

Hoje desmontei minha cama. Fiquei a madrugada toda desmontando-a. Retirei cada gaveta, retirei cada parafuso, cada pequena parte e empilhei logo ao lado da meu colchão. Meu colchão no chão. Nada mais bonito do que um colchão no chão e acordar com a garganta tão cheia de poeira. Acordar com vontade de não ter acordado.

Não consigo realmente saber sobre o que você fala quando abre os lábios. Talvez eu esteja tão dentro de mim que tudo o que você diz é um grito indistinto e quase inaudível através de uma parede grossa de vidro. Meus olhos te veem, acompanham suas cores, mas meu peito se encontra tão fechado que quando eu realmente tento respirar, tudo que consigo é inalar um pouco mais do CO2 que me sufoca.

Ah, doce dama, porque nessa noite, nesse dia e nessa tarde, a vida tem que ser vivida tão cheia de drama? Porque os dois segredos que eu tenho não poderiam ser seus também? Eu só precisava que você desse três passos, mas eu não posso te culpar. Estou a tanto tempo sem andar que quando você me vê pensa que sou paraplégico em amar.

Há dias em que eu simplesmente tenho vontade de ir para o lugar mais longe daqui. E é engraçado, porque eu pesquisei no site http://furthestcity.com/, e o lugar mais longe daqui é Urasoe no Japão. Felizmente, hoje em dia o Google Street chegou em todos os lugares. E olhando como Urasoe é, percebo que é igual a aqui. A diferença está no japonês das placas e nas ruas com pessoas um pouco diferentes.

Uma vez um professor disse como é interessante quando vamos para um outro lugar e vemos que as coisas são tão diferentes, mas ao mesmo tempo são todas iguais. Você pensa que me vê, pensa que me ouve, mas não sabe nem um pouco como é viver na minha pele. Você realmente pensa nisso? Eu não sei como é viver na sua também. Não conheço seus desejos, não conheço seus anseios, suas verdades e suas mentiras. Não sei como é viver cada segundo na sua pele. Não sei como você vê o mundo e nunca posso ver as coisas pela sua perspectiva. Afinal por mais que meu rosto esteja tão próximo do seu quanto possível, nossas cabeças não ocupam o mesmo lugar do espaço, e em cada ângulo, tem-se uma visão totalmente diferente da vida.

Depois de tanto falar, eu posso perceber que isso aqui nada mais é do que uma repetição de tudo que eu já disse. Parece que a cada dia eu estou morrendo um pouco mais por dentro.

Cada dia, estou um passo a mais de me tornar um bruto nojento e fechado. Usando as regras ensinadas na engenharia. Usando as caixinhas, onde você coloca algo do lado A e sai do outro um resultado B. Sem entender o que é essa caixinha e como ela funciona. Como eu odeio isso. Como eu odeio tudo isso, todo esse sistema e falas, palavras, todas sendo jogadas fora. Porque eu devo viver aqui? Porque? Alguém poderia me dar uma resposta plausível? Eu tento procurar uma por mim mesmo, não encontro nenhuma.

Porque viver em uma sociedade onde o maior objetivo é o dinheiro, o conforto e como sobreviver? Porque viver numa sociedade onde a religião cega as pessoas ao invés de libertá-las e os domingos são uma combinação dos seus pais sentados na frente da televisão esperando a morte tomando sorvete e Coca-Cola e seu irmão jogando jogos online a porra da tarde toda e você, se sentindo tão desmotivado e com essa vontade absurda de morrer no peito pra não precisar passar por isso nem um pouco mais? Porque? PORQUE?

Ah, isso é desastroso. Uma tia responde a um vídeo, que declara que o mundo está acabando, numa conversa no grupo do WhatsApp: "Que bom, o mundo está acabando, Jesus vai voltar!". Eu fico triste em pensar que a maior verdade de alguém é esperar que o mundo acabe para ser feliz. É uma pena que não se possa ser feliz agora. É uma pena que todos já tenham desistido desse mundo. Nem todos, é verdade. Mas mesmo assim. Me destrói um pouco ver tudo isso.

Agora são 11:20, estou no laboratório terminando algumas tarefas. Tenho aula 11:50. Não quero almoçar. De alguma forma acho que isso corresponde a como me sinto. Afinal...

Mortos não comem.

Houve um tempo entre esses dias que pensei estar livre do limbo. Tudo seria bom, me senti completo novamente.

Doce e maravilhosa ilusão.

Croatt

Conceito

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