História Experimental: A Lenda do Invisível

by sexta-feira, novembro 20, 2015 0 comentário(s)

Dizem que já há muitos anos anos, em festas, comemorações e eventos, existe um ser humano responsável por se ocupar em ser invisível. 

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Ele vaga pelo salão procurando vítimas inocentes que permanecem para sempre não o vendo. Anda pelas beiradas. Atravessa entre grupos que estejam de costas.

Com seus pés, não faz nenhum barulho. Pensa porque foi ali, e ter pago tanto dinheiro numa festa que não conhece ninguém. Olha para algumas meninas e as de bigode olham de volta, conclui que não está fazendo um bom trabalho em ser invisível e muda de lugar da festa.

A música toca a noite toda, mal se entende quando se tem mais álcool do que sangue nas veias. Os barulhos vão aumentando, os movimentos aumentando. Parece que toda a festa se tornou uma enorme massa que se uniu para virar um monstro de lama radioativa. A enorme massa grita "vamos tirar uma selfie/vamos dançar/ihuuu/yeah/você sempre vem aqui?/eu faço Letras/qual o seu nome?/você é linda/você é idiota/vai lá nela idiota". A enorme massa beija, transa, dança, vomita, vai no banheiro e volta. A enorme massa absorve você. Porque ela é tão grande, que mesmo dentro dela, você vai continuar invisível.

Então você resolve abandonar a massa um pouco, entra no banheiro masculino e tem 8 meninas com 10 caras dentro do banheiro. Você se pergunta quando foi que o banheiro virou misto. Talvez nunca... talvez alguém tenha trocado as placas e todo mundo entrou ali por confusão. Eles pareciam ocupados, uma hora vão perceber que não estão no lugar certo. Assim como você.

Uma hora você, invisível, percebe que não está no lugar certo. Porque você veio mesmo? Ah sim, era pra não ficar sozinho em casa. Bom, de qualquer forma, já está ficando tarde. Os sons morrem quando você sai pela porta. O segurança dá uma olhada, pergunta se quer que chame um Táxi. Você diz "não, tudo bem, pego o metrô... já está amanhecendo".

Claramente é uma mentira. Nada amanhece no peito.

Na verdade, não existe peito. Não existe você. "Você não existe", ela disse.

Talvez seja a hora de cumprir tal afirmação. Olha só essas linhas de trem... mas antes de qualquer conclusão, o metrô para na estação. Você entra, o metrô está novo. Bem bonito, rápido. De qualquer forma, não impede que você durma e chegue na estação Eldorado. Melancolia. E um pouco de dor. Você pega o metrô. Volta para casa.

Abre a porta, todos estão dormindo. Você fecha o black-out do quarto. Deita no seu colchão no chão. Mas antes de apagar, pede.

Pede que algum dia, a invisibilidade deixe de ser real, pelo menos pra uma pessoa.

Croatt

Conceito

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