Tingida

by domingo, outubro 16, 2016 1 comentário(s)
Tingida 

 
                             
                                de Ruth Mellina;

Azul, vermelho ou verde?
Só se pode escolher uma cor.
Ela nunca havia pensado o quão difícil seria a escolha,
Até que teve de escolher.

Tudo começou com o azul.
Sempre fora tranquilo, sereno.
Era sinônimo de paz.  
Ao seu lado, o futuro apontava para o previsível, para o estável. 
A vida seria um pêndulo, cuja oscilação não mudaria a frequência. 

Foi quando surgiu o vermelho. Intenso.
E o núcleo de calmaria se desfez.
Apresentou á ela a vida que estava acostumado a viver.
E vivia intensamente. Sem medo de sentir, de falar, de agir. 

A vida poderia ser outra.
Contrastes e contrastes.
Nada certo, tudo indefinido.
Emoções e emoções.

Vai e vem de sensações.
Parecia mais interessante,
Porém, não poderia se apegar a nada. 
Tudo seria passageiro, as coisas seguiriam para onde o vento as levassem. 

E o vento soprava, de um lado para o outro,
Até que ela se esbarrou no verde.
Uma nova cor aparecia pra lhe mostrar o mundo,
E todas as sensações foram traduzidas em apenas uma. A felicidade.

Com ele tudo se fazia alegre.
Dançava pela vida com seus passos de alegria.
Não importava a música.
A dança sempre era contente. 

Viver sem as tristezas do mundo.
Ver as coisas através do filtro prazenteiro.
A vida seria bela, embora o mundo fosse o mesmo.
O filtro seria esmeraldino, ela seria feliz.  

Azul, vermelho ou verde?
Só se pode escolher uma cor.
Mas estava perdida em meio aos três.
Estava apaixonada por cada um. 
Não sabia qual escolher. 

Cada um tinha seu espectro,
E eles não se misturavam.
Matizes diferentes.
Ou azul, ou vermelho, ou verde. 

Tinha medo de perder o azul e, também, a sua paz.
Tinha medo de perder o vermelho, e sua vida, a emoção. 
Tinha medo de perder o verde e, com ele, a alegria. 
Tinha medo de que escolhesse um deles e seu coração amasse a outro.

Ainda não conhecia o laranja nem o amarelo.
Ainda não conhecia o anil nem o violeta.
E se, algum dia, se apaixonasse, também, pelas cores que ainda não conhecia?

O mundo é de contingências,
Paleta de pigmentos. 
Então ela saiu para ver o mundo.
Conheceu todas as tonalidades,
Procurou pelas mais diferentes freqüências. 

Ela sempre fora branca,
Sorria para todas as cores,
Mas agora, depois de muito haver procurado, 
Havia se tornado uma tela chapiscada por coloridos respingos.

Milimétricas diferenças originavam novos feixes.
Ela viu a todos eles.
Até que, finalmente, conseguiu se decidir por apenas um.

Escolheu, enfim, uma cor para amar.
Mas ela já estava toda tingida.
Marcada pela vida.
Marcada por muitas cores, 
Marcada por eles.

Um comentário:

  1. Autora incrível; poema bem feito; reflexão maravilhosa. Adorei!

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