Tudo sobre agora

by quinta-feira, outubro 06, 2016 0 comentário(s)


Entretanto os poucos segundos que separaram esses dois momentos entre estar aqui e não estar mais, me dividiram tanto que não sei mais descrever tão bem o que me tornei. Sinto minha pele, meus limites e minhas vontades. Sinto a realidade, sua textura, sua habilidade em me prender em seus pequenos prazeres e em seus ligeiros detalhes. Tão efêmeros, tão instantâneos. Nada perpetua em um mundo cinza. Tudo é monotonia. As cores outrora claras e próximas, agora estão tão distantes... E eu queria apenas um olá. Talvez seja um pouco exigente demais, um pouco derradeiro demais, esperar algum, sequer qualquer um final feliz. Não há finais felizes, não se deve esperá-los. A mente flui entre as palavras de um modo impossível de prever ou sequer testemunhar. Estamos entre dois instantes. Estamos presos entre dois Universos, um lugar vazio, o limbo eterno no qual todos os seres humanos entram e não estão simplesmente acostumados, mas claro, presos, não seria de outra forma, não poderia ser. Esperanças que não se concretizam, mentiras que nos cegam durante a noite. Então se acorda, olha a janela lá fora, um dia nublado, o vento soprando as folhas pra longe, cachoalhando-as no chão enquanto elas se estremecem a fazer pequenos barulhos dentro de seus próprios espaços. Eu, que fingia conseguir prever tudo, não saberia dizer em qual dos momentos eu realmente me perdi. Nunca sei dizê-los. Não sei se sou autêntico, ou novamente uma das dezenas e milhares de pessoas com quem cruzei ao longo da vida, como um pequeno reflexo das coisas incríveis que vi em cada uma. Eu sinto falta de algumas delas. Ah! Como eu sinto saudade e falta delas. Elas estão tão presentes em mim que eu gostaria de simplesmente abraçá-las por mais do que os três segundos permitidos segundo a norma natural das coisas. Quem, meu bem? Quem você se tornou? Era pra estarmos pra sempre unidos pela maioria dos sentimentos. Era pra sempre sermos quem nós quiséssemos ser. Em qual parte do caminho nós nos separamos tão distantemente? Em qual parte da vida nós deixamos de ligar para quem somos e começamos a querer ser outras pessoas que nunca sequer conhecemos se não por vídeos, histórias, livros. Como nós, digo eu e você, nos tornamos essas pessoas das novelas, interpretando e regendo cada um dos nossos segundos como se fôssemos uma história borrada cheia de marcas dos milhares de copos de café que bebemos e colocamos por cima das páginas até aqui. Me encontro fora de uma sala de aula, o barulho não incomoda porque meus fones estão com um volume alto. Talvez eu não devesse me separar tanto das pessoas. Eu apenas não consigo lidar muito bem quando elas estão perto demais. Eu minto, eu finjo, ajo como se fosse algo além do que realmente sou. Talvez por isso eu as evite. Eu não quero ter que ser algo ou alguém que não sou. Talvez por isso seja tão só. Mas nada disso importa, não é verdade? Ainda existirão os trabalhos para serem entregues, as provas a serem feitas, a profissão a ser empenhada, os filhos a serem criados, a história a ser esquecida e a morte a nos buscar inevitavelmente. Não queria que o texto terminasse tão real, tão triste, mas real. Poderia dizer que você não deve perder a esperança e que deve pensar muito bem antes de escolher qual será seu futuro, e sempre pensar positivo. Mas não é nada disso. Não há ilusões que justifiquem ou expliquem o porquê você decidiu ir embora. Não há sequer explicações do porque eu decidi ir também. Apenas fomos. Sempre iremos. Nascemos nesse planeta milênios atrás, nômades. Somos e seremos eternos nômades. O pecado é eles tentarem nos forçar a ficar em um lugar só.

Crie, voe. Destrua e mude. Viaje.

Nada importa mais.

Croatt

Conceito

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